Discos eternos – Som Imaginário (1971)

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RIO DE JANEIRO - Confesso que até o reveillón de 1996/1997, desconhecia por completo a existência de um grupo brasileiro chamado Som Imaginário. Em pleno 1º de janeiro, com o som da festa devidamente levado de volta por seu dono para o Rio de Janeiro (a passagem de ano foi em Petrópolis, com dezenas de amigos, num casarão da família de uma amiga minha de faculdade), nos restou apenas uma velha vitrola e discos mais velhos ainda, onde despontavam Colosseum, Camel, Caravan e Som Imaginário.

Eu e um conhecido daquela época, que acho que se tornou músico, fomos ver qual era a desse grupo e ao ouvir a primeira faixa, demos muito boas risadas. Afinal de contas, o que tinha de interessante uma música que dizia “eu vou plantar cenouras na sua cabeça”? Fácil: muita coisa.

Tempos depois, vim descobrir que o Som Imaginário surgira em Minas no fim dos anos 60, para ser a banda de apoio de ninguém menos que Milton Nascimento. O grupo era formado por – vejam bem a turma – Fredera na guitarra-solo (à época assinando Frederyko), Tavito no violão e na guitarra-base, Luiz Alves no baixo, Wagner Tiso no piano e órgão, Zé Rodrix no piano, órgão, flauta e vocais, e Robertinho Silva na bateria. Laudir de Oliveira foi chamado para ser o percussionista, mas durou pouco tempo na função: foi excursionar com o Brazil 69 de Sérgio Mendes.

Essa turma toda tocou em 1970 no famoso show Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário, um espetáculo que foi bem-sucedido e provou que o Som Imaginário era mais do que uma simples banda de apoio, com boas possibilidades até de conseguir contratos para gravar discos. Nesse mesmo ano, o grupo participou do FIC da TV Globo com “Feira Moderna”, composição de Fernando Brant e Beto Guedes. Foram para a final, mas como correu um boato que “BR-3″, de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo, com Toni Tornado e o Trio Ternura cantando, venceria a fase nacional do festival, eles não se conformaram: tocaram uma versão fake com um só acorde e sem nenhum sentido.

Apesar disto, “Feira Moderna” fez parte do primeiro álbum do grupo, que veio à luz nesse mesmo ano de 1970. Nesse primeiro trabalho, o Som Imaginário não flertava com o que se convencionava chamar de MPB: era uma mistura poderosa de Beatles, com psicodelia, rock progressivo e a cultura hippie que “fazia a cabeça” da moçada mais jovem.

Divididos entre o grupo e trabalhos paralelos com outros artistas – inclusive Milton Nascimento – os integrantes do Som Imaginário tiveram que se virar sem Zé Rodrix, que sairia do grupo para formar o trio Sá, Rodrix e Guarabyra. Sem ele, o líder natural passou a ser Fredera, que cantou em praticamente todas as faixas do disco de 1971.

A abertura é com a sensacional “Cenouras”, supracitada, onde Fredera e Tavito capricham nas guitarras e o primeiro solta a pérola-mor do disco: eu vou plantar cenouras na sua cabeça… É só a tônica do que o ouvinte poderia encarar nas sete faixas seguintes. Em “Você tem que saber”, com uma levada típica de música regional e farta percussão, o grupo flerta com a MPB renegada no disco anterior, num resultado surpreendentemente bom.

O escracho dá o tom na terceira música. “Gogó (O alívio rococó)” começa com uma seqüência de gritos initeligíveis, pratos, bateria, percussão, acordes dissonantes e uma letra absolutamente hilária que termina assim: Rococó… meu gogó… tua avó… pão-de-ló… bororó… curió… no filó… Sensacional!

“Ascenso” é uma faixa que remete ao disco de estréia de outro grupo que bebia na fonte do prog rock: O Terço. Com um vocal espetacular de Fredera e a belíssima letra de Fernando Brant, é uma das melhores de todo o álbum, com um arranjo caprichadíssimo de Wagner Tiso.

Outro grande destaque é “Salvação pela macrobiótica”, um canto falado engraçadíssimo e anárquico que começa falando do feijão nosso de cada dia e depois embarca numas de que bom mesmo é ficar meditando e comendo arroz integral. A sexta faixa é também de dois mineiros que seriam fornecedores de canções do movimento do Clube da Esquina: Chico Lessa e Márcio Borges compuseram “Ué”, outra com letra viajandona e excelente performance de Tavito e Fredera nas guitarras, além da competentíssima cozinha formada por Luiz Alves e Robertinho Silva.

“Xmas Blues”, como o próprio nome sugere, é um blues que remete a Natal e congêneres, em nova letra hilária de Fredera que diz que o algodão branco imita a neve irreal – provavelmente porque em Minas Gerais neve é artigo inexistente. Por fim, o disco encerra com “A nova estrela”, belíssima composição de Fredera e Wagner Tiso, com o piano e o órgão tocados por este último em absoluto destaque.

Uma senha para o que seria o disco seguinte do grupo – Matança do Porco, gravado em 1973, que seria também o divisor de águas para a carreira de Wagner Tiso. O Som Imaginário ainda tocaria em Milagre dos Peixes, grande álbum de Milton Nascimento algum tempo depois e os fãs mais extremados consideram que este é o quarto e último trabalho de uma banda que deixou sua marca na música moderna brasileira.

Pena que durou tão pouco tempo.

Ficha Técnica de Som Imaginário
Selo: EMI-Odeon
Produzido por Milton Miranda
Gravado nos estúdios da EMI-Odeon no primeiro semestre de 1971
Tempo total: 31’47″

Músicas:

1. Cenouras (Frederyko)
2. Você tem que saber (Chico Lessa/Márcio Borges)
3. Gogó [O alívio rococó] (Frederyko/Wagner Tiso)
4. Ascenso (Fernando Brant/Frederyko)
5. Salvação pela macrobiótica (Frederyko)
6. Ué (Chico Lessa/Márcio Borges)
7. Xmas blues (Frederyko)
8. A última estrela (Frederyko/Wagner Tiso)

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5 comentários sobre “Discos eternos – Som Imaginário (1971)

  1. Rodrigo,dei uma olhada nos seus “Discos Eternos” e não vi uma citação se quer de qualquer musica de Taiguara,foi falta de atenção minha ou você não gosta de nenhuma das musicas dele?

  2. Poxa… Eu não conhecia este disco. Nem a banda.
    Do Tavito eu só sabia daquela que ele cita os Beatles e o Sacre coer…
    Vou ouvir com mais atenção.

  3. Grandes lembranças essas, Rodrigo! Vi um show deles no Teatro Opinião, e lá pelas tantas o Zé Rodrix chamou para uma participação especial uma jovem cantora ainda desconhecida, que entrou e arrebentou junto com eles: Gal Costa, se chamava a baianinha…

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