30 anos do bi, parte XV (final) – GP da África do Sul de 1983

RIO DE JANEIRO – Quinze de outubro de 1983. Num sábado, no circuito sul-africano de Kyalami, Alain Prost, Nelson Piquet e René Arnoux decidiriam o título do Mundial de Pilotos de Fórmula 1. Um dos três teria o privilégio de ser o primeiro piloto a ganhar um campeonato com um carro movido a motor turbocomprimido e a disputa prometia muito. Prost fora o dominador absoluto de grande parte da temporada, mas Piquet e Arnoux conquistaram vitórias e deram muito trabalho – especialmente o brasileiro, com uma reação fulminante nas corridas anteriores em Monza e Brands Hatch.

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Pelo menos, o clima que existia na época era extremamente amistoso e como bem relatou o amigo Luiz Alberto Pandini em seu blog, Piquet e Prost chegaram a jantar juntos – algo impensável nos dias de hoje. O bate-papo sem dúvida serviu para amenizar as escaramuças de bastidores que a imprensa plantava entre Renault e Brabham, com os franceses acusando os alemães da BMW de utilizar combustíveis de foguete desenvolvidos pela Wintershall para seus motores – o que nunca foi provado.

Para a última corrida do ano, o grid tinha duas baixas: com a situação financeira precária, Teddy Yip retirou a Theodore Racing da temporada e não viajou para a África do Sul, deixando a pé o colombiano Roberto Guerrero e o venezuelano Johnny Cecotto. A Spirit também se ausentou com Stefan Johansson, mas por um motivo nobre: o motor Honda faria sua estréia na Williams com o novíssimo FW09 para Keke Rosberg e Jacques Laffite. Um batismo de fogo e tanto para os dois carros. E pela primeira vez no ano, todos os 26 inscritos largariam, inclusive a RAM March de Kenny Acheson.

Treinos

A guerra psicológica da classificação foi a princípio vencida por Nelson Piquet, embora o brasileiro não tivesse conseguido a pole position. Patrick Tambay, carta fora do baralho desde o GP da Europa, marcou o melhor tempo, virando em 1’06″554 contra 1’06″792 do piloto da Brabham. Riccardo Patrese, com um carro perfeito e muito rápido, conseguiu se infiltrar entre os rivais diretos de Nelson, ficando na frente de René Arnoux e Alain Prost no grid.

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Keke Rosberg foi brilhante com o novo Williams Honda e fez o 6º tempo, mostrando não só que era um piloto rápido como também que o conjunto, com desenvolvimento, poderia ser muito competitivo. Um bálsamo e tanto para quem, do meio da temporada em diante, só classificou do décimo lugar pra trás. E com dezessete carros equipados com motores turbo ocupando os 17 primeiros lugares, o melhor dos “convencionais” foi Michele Alboreto, em décimo-oitavo. Na sua última corrida pela Ligier, Raul Boesel classificou-se em 23º, na frente de Kenny Acheson e dos dois Osella Alfa Romeo que fecharam a raia.

Corrida

Horas antes da corrida, num sábado, aconteceu o treino de aquecimento onde as equipes fizeram os últimos ajustes para a largada. Foi aí que a Brabham, numa cartada de mestre, definiu a estratégia suicida que mudaria a história da corrida. Ao contrário do que Renault e Ferrari imaginavam, Nelson Piquet é quem daria o bote, largando bem leve e disparando na ponta, enquanto Riccardo Patrese, a quem imaginavam que seria o “coelho” do brasileiro, faria o papel de fiel escudeiro. Um Sancho Pança a 300 km/h.

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Disparado o sinal verde, autorizando a largada, Piquet arrancou feito uma flecha, para espanto de franceses e italianos. Patrese cumpriu à risca a tática e passou para segundo, deixando Tambay para trás. Andrea de Cesaris, totalmente alheio ao que acontecia na dianteira, largou muito bem e foi de nono para quarto. Alain Prost passou a primeira volta em quinto e René Arnoux, em sétimo.

Enquanto Tambay perdia posições para de Cesaris e Prost, outro piloto começava a dar show em Kyalami: Niki Lauda, décimo-segundo no grid, passou Cheever, de Angelis, Rosberg e Arnoux para chegar aos seis primeiros colocados. Na nona volta, o austríaco da McLaren também passou Tambay e veio para a quinta posição.

Correndo em oitavo, Arnoux foi o primeiro a cair na armadilha da Brabham. Enquanto Piquet corria solitário na ponta, o francês encostava nos boxes e abandonava a disputa. Agora, restavam o brasileiro e Alain Prost para discutir o título. E com o resultado da pista até aquele momento, Piquet era campeão.

Lauda, possuído como nos velhos tempos, seguia dando espetáculo. Na 12ª volta, ele passou a Alfa de Andrea de Cesaris e foi pra quarto, impondo uma enorme pressão a Alain Prost. Pouco depois, o francês perdia mais uma posição na corrida, deixando Piquet em situação ainda mais confortável na luta pelo título.

A situação permaneceu assim, com Piquet disparado em primeiro – mesmo após o rapidíssimo pit stop em 9″2 segundos, Patrese de escudeiro e Lauda de coadjuvante de luxo, ocupando as três primeiras posições, até a 34ª volta, quando Lauda foi aos boxes para reabastecer e trocar pneus, voltando para a pista em sétimo. Logo depois, foi a vez do pit stop de Prost, e enquanto os mecânicos da Renault tratavam de efetuar o abastecimento, o francês já batera no cinto e abandonava a disputa: o motor não agüentou o esforço e quebrou.

Com o plano cumprido perfeitamente, a dobradinha da Brabham perdurou inclusive quando Patrese foi aos boxes, sem sustos, para cumprir seu pit stop. Lauda continuava impossível e vinha em terceiro, na sua melhor exibição em 1983, trazendo de Cesaris, Tambay e Derek Warwick nas posições seguintes.

Na 56ª volta, o turbo da Ferrari de Patrick Tambay se entregou, ao mesmo tempo em que a Toleman de Bruno Giacomelli, em posição perigosa na pista, pegava fogo e os comissários, sem muita intimidade com os extintores de incêndio, despejaram uma nuvem de pó químico que chegou a atrapalhar a visão dos pilotos. Pouco depois, como prêmio pela tática perfeita de corrida, Nelson Piquet tirou o pé do acelerador e permitiu a ultrapassagem de Riccardo Patrese, o novo líder.

O brasileiro, só pra humilhar Prost e companhia limitada, reduziu a pressão do turbo nas últimas voltas e deixou também que seu velho amigo Niki Lauda o superasse para chegar ao 2º lugar. Só que, a cinco voltas do fim, o motor TAG Porsche Turbo deixou Lauda a pé – após um desempenho impressionante que era um “cartão de visitas” do que aconteceria na Fórmula 1 pelos anos seguintes.

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De volta ao segundo lugar, Piquet poderia optar pela dobradinha, mas permitiu também a ultrapassagem de Andrea de Cesaris. Afinal de contas, os quatro pontos da 3ª colocação já bastavam para derrotar Alain Prost por dois pontos. E no fim da manhã daquele sábado, 15 de outubro, os fãs brasileiros de automobilismo entravam em delírio quando Piquet apontou na reta, depois da passagem do vencedor Patrese e de Andrea de Cesaris, para conquistar enfim o bicampeonato mundial e entrar para a história como o primeiro campeão mundial a bordo de um carro com motor turbo.

O resultado final do GP da África do Sul de 1983:

1. Riccardo Patrese (Brabham BT52B BMW Turbo) – 77 voltas em 1h33min25s708, média de 202,941 km/h
2. Andrea de Cesaris (Alfa Romeo 183T) – a 9s319
3. Nelson Piquet (Brabham BT52B BMW Turbo) – a 21s969
4. Derek Warwick (Toleman TG183B Hart Turbo) – a 1 volta
5. Keke Rosberg (Williams FW09 Honda Turbo) – a 1 volta
6. Eddie Cheever (Renault RE40) – a 1 volta
7. Danny Sullivan (Tyrrell 012 Cosworth) – a 2 voltas
8. Marc Surer (Arrows A6 Cosworth) – a 2 voltas
9. Thierry Boutsen (Arrows A6 Cosworth) – a 3 voltas
10. Jean-Pierre Jarier (Ligier JS21 Cosworth) – a 4 voltas
11. Niki Lauda (McLaren MP4/1E TAG Porsche Turbo) – a 6 voltas (*)
12. Kenny Acheson (RAM March 01 Cosworth) – a 6 voltas
13. Nigel Mansell (Lotus 94T Renault Turbo) – a 9 voltas (**)
14. Raul Boesel (Ligier JS21 Cosworth) – a 11 voltas (**)
15. Michele Alboreto (Tyrrell 012 Cosworth) – AB/60 voltas/motor
16. Patrick Tambay (Ferrari 126C3) – AB/56 voltas/turbo
17. Bruno Giacomelli (Toleman TG183B Hart Turbo) – AB/56 voltas/turbo
18. Alain Prost (Renault RE40) – AB/35 voltas/turbo
19. Corrado Fabi (Osella FA1E Alfa Romeo) – AB/28 voltas/motor
20. Elio de Angelis (Lotus 94T Renault Turbo) – AB/20 voltas/problemas elétricos
21. John Watson (McLaren MP4/1E TAG Porsche Turbo) – AB/18 voltas/bandeira preta por ultrapassagem na volta de apresentação
22. René Arnoux (Ferrari 126C3) – AB/9 voltas/motor
23. Mauro Baldi (Alfa Romeo 183T) – AB/5 voltas/motor
24. Manfred Winkelhock (ATS D6 BMW Turbo) – AB/1 volta/motor
25. Jacques Laffite (Williams FW09 Honda Turbo) – AB/1 volta/acidente
26. Pier Carlo Ghinzani (Osella FA1E Alfa Romeo) – AB/1 volta/motor

(*) – abandonou ao fim da disputa, mas foi classificado

(**) – não completaram 90% da distância e não receberam classificação

Classificação final do campeonato de pilotos de 1983:

1. Nelson Piquet – 59 pontos; 2. Alain Prost – 57; 3. René Arnoux – 49; 4. Patrick Tambay – 40; 5. Keke Rosberg – 27; 6. John Watson e Eddie Cheever – 22; 8. Andrea de Cesaris – 15; 9. Riccardo Patrese – 13; 10. Niki Lauda – 12; 11. Jacques Laffite – 11; 12. Michele Alboreto e Nigel Mansell – 10; 14. Derek Warwick – 9; 15. Marc Surer – 4; 16. Mauro Baldi – 3; 17. Elio de Angelis e Danny Sullivan – 2; 19. Bruno Giacomelli e Johnny Cecotto – 1 ponto.

Classificação final do Mundial de Construtores:

1. Ferrari – 89 pontos; 2. Renault – 79; 3. Brabham – 72; 4. Williams – 38; 5. McLaren – 34; 6. Alfa Romeo – 18; 7. Tyrrell e Lotus – 12; 9. Toleman – 10; 10. Arrows – 4; 11. Theodore – 1 ponto.

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7 respostas em “30 anos do bi, parte XV (final) – GP da África do Sul de 1983

    • Acho que tem alguma questão religiosa envolvida no meio, pois no futebol inglês, até uma determinada época, os jogos só podiam ser realizados aos sábados também. Essa questão afetou inclusive o andamento dos jogos da Copa de 66.

    • Deve ser algo ligado a religião mesmo.Houve épocas,que o GP da Inglaterra e da Holanda foram sábado tb.
      Aliás,se não me engano,esta foi a última corrida da história da F-1,que não foi disputada em um domingo.

      • Não, porque ainda houve mais dois GPs da África do Sul em 1984 e 1985 e ambos foram num sábado. Só em 1992 e 1993 é que a corrida passou a ser disputada num domingo.

      • Nas provas no Reino Unido e na Holanda também eram no sábado. Inclusive a etapa holandesa da MotoGP ocorre no sábado até hoje.

  1. Bons tempos de F1 que tínhamos pilotos que disputavam os títulos. O campeonato foi decidido nas três últimas corridas. Na época cheguei a pensar que o bi tinha ido pro brejo depois do GP da Holanda, mas minha esperança tinha voltado com o gp da Itália. Na minha opinião foi ali a corrida que decidiu o campeonato. Agora fico na torcida para a restrospectiva do tri de Piquet e dos três do Senna.

  2. Parabéns Piquet pelos 30 anos do bicampeonato. Foi um título brigado até os instantes finais e conquistado com muito trabalho e talento.

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