Esporte-Protótipos inesquecíveis: Alfa Romeo Tipo 33 (1967/77)

RIO DE JANEIRO – A série dos grandes Esporte-Protótipos já construídos na história do automobilismo volta com uma lenda que, por uma década, brilhou nas pistas mundo afora, inclusive aqui no Brasil. Os Alfa Romeo Tipo 33 desfilaram sua competência e conquistaram uma legião de fãs apaixonados pela marca do trevo de quatro folhas, que fez história no automobilismo com seus carros.

O primeiro projeto do Tipo 33 teve início em 1965. O engenheiro Carlo Chiti desenhou o protótipo que estreou como modelo oficial de fábrica numa prova de Subida de Montanha em Fléron, na Bélgica. Teodoro Zeccoli foi escalado para conduzir o bólido e venceu naquela oportunidade. O carro foi originalmente construído com motor V8 de 2 litros de capacidade cúbica, com 270 HP de potência.

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No World Sportscar Championship, o Mundial de Endurance, o Tipo 33 conseguiu um bom resultado nos 1000 km de Nürburgring, no Nordscheleife: 5º lugar, com Zeccoli e o parceiro Roberto Bussinello.

Em 1968, surgiu o modelo 33/2, que logo estreou com vitória nas 24 Horas de Daytona na classe para protótipos até 2 litros, com Udo Schütz/Nino Vaccarella – 5º lugar na classificação geral, derrotados apenas pelos Porsche 907 do time oficial do fabricante alemão e por um Mustang da Shelby Racing. Na lendária Targa Florio, Ignazio Giunti/Nanni Galli chegaram em segundo e Lucien Bianchi/Mario Casoni em terceiro.

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Nos 1000 km de Nürburgring, estreou a primeira versão da 33/2 com motor de 2,5 litros, para Udo Schütz/Lucien Bianchi, que terminaram em 7º lugar. E em Sarthe, na edição das 24 Horas de Le Mans excepcionalmente adiadas para o fim de setembro, os três T33/2 inscritos chegaram em quarto, quinto e sexto, com Giunti/Galli formando a melhor dupla da Autodelta na ocasião.

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Aqui no Brasil, um carro muito parecido com a T33/2 faria história: o modelo P33, inicialmente trazido ao país para a Feira da Bondade, acabou competindo por aqui graças ao desprendimento da lendária escuderia Jolly-Gancia. Foi o carro que catapultou José Carlos Pace, o Moco, ao estrelato. Ele e Marivaldo Fernandes, o Muriva, velho amigo, venceram o Campeonato Brasileiro de Automobilismo em 1969.

Naquele ano, a Autodelta sofreria um grande baque: após a estreia pouco auspiciosa da T33/3 com seu motor de 3 litros e 400 HP de potência nas 12 Horas de Sebring, Lucien Bianchi foi vítima fatal de um acidente nos treinos das 24 Horas de Le Mans. O belga guiaria o carro #19 e a esquadra italiana retirou-se oficialmente da competição. Não foi um ano dos melhores e a Alfa Romeo amargou um esquálido 7º lugar entre os construtores no Campeonato Mundial de Marcas.

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Apesar do domínio cada vez mais latente do Porsche 917 e da Ferrari 512, com poderosos motores de 12 cilindros e cinco litros, a T33/3 começaria bem melhor a temporada de 1970. Ausente em Daytona, a Alfa Romeo obteve um excelente 3º posto nas 12 Horas de Sebring, graças a Toine Hezemans/Masten Gregory. Após um modesto sétimo posto nos 1000 km de Monza com Nanni Galli/Rolf Stommelen, a equipe conquistaria como melhor resultado o 2º lugar nos 1000 km de Zeltweg, graças a Andrea de Adamich/Henri Pescarolo, que já conduziam a T33/3 versão 71.

No fim daquele ano, a Autodelta apareceria no Brasil para disputar a Mil Milhas – não ainda com a T33/3, mas sim com a P33 para Carlo Facetti/Giovanni Alberti, que chegaram em 3º lugar. Na Copa Brasil, o carro ficaria para o “Terror da Pampulha”, o mineiro Toninho da Matta, que dava seus primeiros passos em competições de grande porte, após impressionar com um Opala da equipe Motorauto. Mas o piloto demoliu a P33 num grande acidente em Interlagos, o que o afastaria por um bom tempo das pistas.

Entrementes, 1971 foi o melhor ano da Alfa Romeo até aquela data nas competições de Endurance. O trabalho árduo começava a render frutos e na classe dos Protótipos com mecânica até 3 litros de cilindrada cúbica, a T33/3 era quase imbatível. O ano começou com o 3º lugar nos 1000 km de Buenos Aires, com Rolf Stommelen/Nanni Galli, que ainda chegariam em segundo nas 12h de Sebring, atrás de Vic Elford/Gérard Larrousse.

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No dia 4 de abril, a glória: numa corrida marcada pela chuva, o carro #54 guiado por Andrea de Adamich/Henri Pescarolo deu à Autodelta a primeira vitória na classificação geral. A dupla completou 235 voltas no circuito de Brands Hatch, palco dos 1000 km BOAC, batendo a Ferrari 312 PB de Jacky Ickx/Clay Regazzoni por três voltas e o Porsche 917K de Jo Siffert/Derek Bell por quatro. Nos 1000 km de Monza, a corrida seguinte, a dupla chegaria em 3º lugar, mesmo resultado alcançado em Spa-Francorchamps.

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A Targa Florio, lendária corrida realizada na Sicília, teria a segunda vitória da Alfa Romeo no Mundial de Marcas de 1971, graças a Nino Vaccarella/Toine Hezemans – e em dobradinha, pois Andrea de Adamich/Gijs Van Lennep chegaram em segundo. Nos 1000 km de Nürburgring, de Adamich voltou a compor a dupla usual com Pescarolo e eles receberam a quadriculada em quarto lugar.

A Alfa Romeo fez forfait nas 24 Horas de Le Mans, mas apesar disso, os resultados continuavam excelentes. Hezemans/Vaccarella chegaram em 2º nos 1000 km de Zeltweg, com Stommelen/Galli em terceiro. E na corrida de encerramento do Mundial de Marcas, as 6h de Watkins Glen, Andrea de Adamich e Ronnie Peterson deram à Autodelta a terceira vitória na geral, mais uma vez superando os possantes carros de 5 litros. Como resultado, a marca italiana foi vice-campeã mundial com 51 pontos, atrás da Porsche.

Para 1972, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) mudou o regulamento técnico, banindo do Mundial de Marcas o Porsche 917 e a Ferrari 512. Por ter um carro praticamente “pronto”, a Alfa Romeo teoricamente era a favorita ao título daquele ano. O modelo T33/TT/3 (TT significa telaio tubolare em italiano – chassi tubular, em português) teria como rivais a 312 PB da Ferrari e os 908/02 e 908/03 da Porsche.

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A Alfa não teve chance alguma e logo de saída viu que a Ferrari teria o melhor conjunto do ano. O construtor de Maranello largou com vitória em Buenos Aires e Daytona – e a invencibilidade continuaria nas corridas seguintes. Com exceção das 24 Horas de Le Mans, onde a Matra deu as cartas, a Ferrari venceu TODAS as corridas e para a Autodelta restou um 2º lugar na Targa Florio, graças a Helmut Marko/Nanni Galli. Entre outros pilotos que guiaram a T33/TT/3 estavam Andrea de Adamich, Rolf Stommelen, Peter Revson, Nino Vaccarella e Vic Elford, por exemplo.

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Duas T33/3 foram vistas no Brasil naquele ano de 1972, para a disputa da maior edição da história dos 500 km de Interlagos. Marivaldo Fernandes guiou o carro alinhado pela Jolly e a Autodelta trouxe um carro para Teodoro Zeccoli/Giovanni Alberti, que correriam em dupla. Muriva conquistou um excepcional 4º lugar e a dupla italiana abandonou após percorrer 90 voltas. Duro dizer que a Alfa Romeo T33/3 ainda correu aqui no ano seguinte, mas com motor de… Ford Maverick V8!

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Não obstante, a Alfa Romeo também apareceu na série estadunidense Can-Am, com a equipe de Otto Zipper. Por três anos, de 1972 a 1974, Scooter Patrick pilotou a T33/3 e depois a T33/4, esta com motor 4 litros.

Em 1973, Carlo Chitti concebeu a evolução da T33/TT/3 com motor 12 cilindros flat e potência estimada em 500 HP, rebatizada de T33/TT/12. A Autodelta preferiu ausentar-se do Mundial de Marcas, desenvolvendo seu novo carro para a temporada seguinte. E até que o início foi muito bom: trifeta nos 1000 km de Monza, abertura do campeonato. Vitória de Arturo Merzario/Mario Andretti, seguidos por Jacky Ickx/Rolf Stommelen e Carlo Facetti/Andrea de Adamich.

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Daí para diante, só deu a Matra com seu modelo MS670C e a Autodelta não pôde fazer mais nada. Em Nürburgring e Imola, chegaram em 2º com Stommelen e o argentino Carlos Reutemann. Carlo Facetti/Andrea de Adamich fizeram o mesmo nos 1000 km de Zeltweg e foi tudo. A Alfa Romeo chegou apenas em 4º lugar no Mundial de Marcas. A Matra foi campeã invicta e o vice foi da Gulf-Mirage de John Wyer, com a Porsche na terceira posição.

Para o ano de 1975, a Alfa Romeo decidiu encerrar as atividades da equipe oficial, abdicando da disputa do Mundial de Marcas. Mas o esperto alemão Willy Kauhsen enxergou o óbvio: sem a Matra, o T33/TT/12 ainda era um carro que poderia conquistar vitórias e talvez títulos. O alemão conversou com os representantes da Autodelta e arrendou os protótipos do time para disputar a temporada como o time Alfa Romeo naquela temporada.

Kauhsen só se esqueceu de um pequeno detalhe: quando o campeonato começou para sua equipe em Mugello, na Itália, os carros de Arturo Merzario/Jacky Ickx e Henri Pescarolo/Derek Bell tinham o patrocínio da fábrica de salsichas Redlefsen. A turma caiu matando e a risada foi geral. Para muitos, era um acinte que os protótipos da marca italiana tivessem esse tipo de apoio financeiro.

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Em Dijon-Prenois, veio a primeira vitória, com Arturo Merzario/Jacques Laffite e em Monza, na quarta etapa, a dupla ganhou de novo, num carro já com o nome do time (WKRT) abreviado e estampado na carenagem. Quando chegou o apoio da Campari, a equipe decolou: Henri Pescarolo/Derek Bell venceram em Spa-Francorchamps, Zeltweg e Watkins Glen. Arturo Merzario venceu mais duas vezes, uma com Derek Bell e outra com Jacques Laffite, tornando-se o piloto mais vitorioso do time em 1975, com quatro triunfos.

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Com a pontuação máxima (140 pontos e 155 somados), a Alfa Romeo punha fim a sete anos de espera e conquistava um título mundial – o primeiro para a montadora desde a temporada de 1951 da Fórmula 1. A parceria com a WKRT foi desfeita após o fim do campeonato e a Autodelta reapareceria em 1976 apenas para os 500 km de Imola com seu “novo” carro: o T33/SC/12, com Vittorio Brambilla/Arturo Merzario. A dupla chegou em segundo lugar na ocasião.

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Com o SC de scatolato na sigla, o último Alfa Romeo Tipo 33 que disputou competições de Endurance participou do Mundial de 1977 com um motor que já atingira 520 HP de potência. E a marca italiana reinou absoluta: foi novamente campeã mundial numa temporada onde o “Gorila de Monza” Vittorio Brambilla venceu quatro vezes e o compatriota Arturo Merzario também levou a melhor em quatro oportunidades. O francês Jean-Pierre Jarier chegou a fazer parte da equipe e venceu duas vezes.

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E foi assim que, com mais um título mundial, agora entre os Esporte-Protótipos, de acordo com o regulamento vigente, a Autodelta e a Alfa Romeo puseram um ponto final à trajetória dos protótipos Tipo 33. O motor flat 12 do construtor já tinha, inclusive, outra utilidade: roncava desde 1976 nos chassis Brabham de Fórmula 1, num acordo costurado por Bernie Ecclestone.

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6 respostas em “Esporte-Protótipos inesquecíveis: Alfa Romeo Tipo 33 (1967/77)

  1. Quer dizer então que “assassinaram” uma T33 aqui no Brasil?!?!
    Motor de Maveco?!?!
    Sabe por que?
    Foi “arte” de quem?
    Qual foi o fim desse carro?
    Linda a foto do UOP-Shadow literalmente “fungando no cangote” da Alfa na Can-Am!
    Abs.
    Zé Maria

  2. Sensacional a matéria, Rodrigo!
    A saga dessa linhagem de Alfas merece sempre ser lembrada, carros espetaculares. Até hoje carrego no ouvido o grito do V8 da Alfa do Moco saindo do retão e entrando pela Curva Sul do velho traçado de Jacarepaguá. Como acelerava aquele cara…

  3. Sem esquecer tb que as TT12/SC tinham o motor 12 biturbo e cilindrada reduzida para 2.1L por força do regulamento e desenvolviam 640CV para um carro que pesava mais ou menos 700Kg..

  4. O denominado “P33” brasileiro, é efectivamente um T33-2, com motor 2,5 litros. Foi o carro que terminou Le Mans 1968 em 4º lugar.

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