Filme repetido

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RIO DE JANEIRO – A notícia de que a Mini “ordenou” que as posições de Nani Roma e Stéphane Peterhansel sejam mantidas até o fim do Rali Dakar no próximo sábado em Valparaíso – após o francês reduzir a diferença entre eles de quase meia hora no cronômetro para pouco mais de dois minutos, subindo hoje para somente 5min32seg, o que torna a decisão um tanto quanto descabida – fez pairar no ar um velho conhecido de quem acompanha o automobilismo: o fantasma do jogo de equipe.

Não é segredo para ninguém que essa é uma prática antiga no automobilismo e que tem sido altamente condenada – especialmente na Fórmula 1, quando dos casos mais notórios – Áustria 2002, com a patacoada envolvendo Schumacher e Barrichello; Alemanha 2010, do famoso “Fernando is faster than you”; e, por fim, o “Multi 21” da Red Bull na Malásia, ano passado.

Assim como não concordei com nada do que foi feito acima, não posso concordar também com a decisão do Team X-Raid, ou de onde quer que tenha vindo, de não permitir que Nani Roma e Stéphane Peterhansel tenham uma luta direta pelo título dos carros. O chefe de equipe Sven Quandt foi taxativo. “Quero os carros de volta para casa e nossos pilotos também em segurança e com as posições atuais mantidas até o final.”

Tem um detalhe, também: o automobilismo envolve competição mas, infelizmente, tem o seu lado interesseiro. Pensem bem, leitores e leitoras: o que é mais lucrativo para a Mini? Ter um piloto campeão pela 12ª vez no Rali Dakar ou ganhar com qualquer um dos que ali representam a marca britânica hoje sob a égide da BMW? Parece que a segunda opção é a que fala mais alto hoje, concordam? Só que não é todo dia que um piloto chega a doze títulos em 35 edições de uma corrida. Por outro lado, Nani Roma pode chegar a uma conquista inédita (nos carros, pois já venceu o Dakar nas motos), das mais almejadas de sua carreira. São fatores que podem pesar na balança pró e contra determinadas posições da equipe.

Um “causo” que marcou a história do Rali Dakar e entra para o rol dos escandalosos jogos de equipe no esporte a motor ocorreu em 1989. Naquele ano, quando a corrida ainda largava em Paris e começava num outro país africano, cruzando grande parte do continente para chegar a Dakar, capital do Senegal, a Peugeot reinava absoluta na categoria dos carros. Tinha dois pilotos excepcionais: a lenda do Rali de Velocidade Ari Vatanen e o belga Jacky Ickx, que muitos conheciam da Fórmula 1 e de seis vitórias nas 24 Horas de Le Mans.

A competição entre ambos foi acirrada desde o início. Eram companheiros de equipe e se respeitavam, mas se preciso fosse, deglutiriam um ao outro nas trilhas do Dakar. Nas quatro primeiras etapas, os dois mostraram isso de forma veemente: Ickx e seu navegador Christian Tarin venceram as duas primeiras especiais, no que Vatanen e seu parceiro Bruno Berglund deram o troco, ganhando no terceiro e no quarto dia.

Após duas etapas sem vitória, Vatanen conseguiu a 3ª especial dele na ocasião e emplacou mais dois triunfos até a etapa Niamey-Gao, a nona da competição, onde Ickx, graças à sua costumeira regularidade, liderava o Dakar na geral, com o finlandês em seus calcanhares, mesmo com cinco especiais ganhas até ali.

Quando a situação começou a tomar contornos incontroláveis, a Peugeot se viu pressionada a tomar uma decisão sob pena de perder seus dois 405 T16 numa luta hercúlea pela vitória. E lá mesmo em Gao, antes da 10ª etapa do Dakar de 1989, a decisão foi tomada.

Jean Todt, o mesmo que hoje é o presidente da FIA e que na época era apenas o diretor desportivo da Peugeot, lançou mão da prosaica moedinha para definir o vencedor da prova.

Isso mesmo: o dirigente fez um cara ou coroa com uma moeda de 10 francos entre Ickx e Vatanen que, contrafeitos, tiveram que aceitar a ideia. E o belga ficaria mais contrafeito ainda, pois perdeu na moeda para um Vatanen automaticamente proclamado o primeiro piloto nas trilhas.

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Vatanen e Berglund venceram mais duas especiais até Bamako, a capital do Mali. Mas Ickx/Tarin, após dois insucessos dos carros do construtor francês, voltaram à carga para ganhar a penúltima etapa, entre Tambacounda e Saint Louis, já no Senegal. E no último trecho cronometrado, o belga disparou com tudo para passar por cima das ordens de Jean Todt.

A diferença entre Ickx e Vatanen não era muito grande, de modo que se o piloto que perdeu no cara ou coroa quisesse, era só mandar a ordem de Todt às favas e comemorar a vitória passando por cima da decisão via moedinha. Mas não foi isso que aconteceu: para mostrar todo o seu desagrado com a decisão, Ickx acelerou o máximo até faltarem centenas de metros para o fim da especial, que tinha apenas 40 km de percurso.

Adivinhem o que ele fez?

Simplesmente o piloto desceu do carro, fez uma mesura do tipo “passe por favor” e deixou que Vatanen cruzasse à frente dele ao fim da especial. Um recado claro de que, se não houvesse o tal sorteio, a luta podia ter acontecido até o final.

Mais ridículo do que tudo isso, no entanto, foi ouvir de uma personagem polêmica do automobilismo em todos os tempos a seguinte frase:

“Estou muito triste que o Paris-Dakar tenha se transformado em Paris-Gao.”

O autor da frase que ficou para a história foi ninguém menos que Jean-Marie Balestre, que ainda não havia mostrado a sua real face ao mundo do esporte. Afinal, estávamos no começo de 1989…

Então é isso. Estamos conversados: com tudo isso exposto, reitero que não gostei nada da atitude tomada pela Mini, mas como eu disse anteriormente, existem interesses que podem ser contrários ao que gostaríamos que acontecesse na pista. Paciência… mais uma vez o filme se repete.

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2 respostas em “Filme repetido

  1. numa prova como o Dakar ou de longa duração acho ate compreensível uma ordem de equipe pra “preservar” os carros e garantir a vitoria. nao sei se seria exatamente um bom exemplo, mas em Le Mans em 2012 a Audi deixou o pau comer entre seus carros que chegou a um momento em que ficou claro que a melhor decisão seria baixar o ritmo e trazer os etrons em segurança pra bandeirada, ja que seria a primeira vitoria de um hibrido,

  2. É a coisa mais feia que existe no automobilismo. Muito chato isso. Eu gostava muito do Ickx e tudo mais, mas depois que eu fiquei sabendo dessa história dele a alguns anos atrás eu virei fã do cara. Mas enfim é isso. Tem muito dinheiro envolvido, vem as ordens de cima, o pessoal tem medo de que o pior aconteça e vem essas decisões. Infelizmente. Eu deixaria o pau comer solto.

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