Obrigado, Luciano do Valle

luciano-do-valle-fez-50-anos-de-carreira-em-2013-depois-de-comecar-a-trabalhar-em-campinas-aos-16-1385034312001_1024x768

RIO DE JANEIRO – Quem ama o esporte de uma maneira geral, como eu ou muitos dos leitores deste blog está, sem dúvida, muito triste. Morreu neste sábado, aos 66 anos de idade (e não 70, como anteriormente havia escrito), o locutor esportivo Luciano do Valle. Ele viajava para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para trabalhar numa partida da 1ª rodada da Série A do Campeonato Brasileiro, passou mal no voo e não resistiu a um mal súbito, vindo a falecer às 16h15 no Hospital Santa Genoveva.

Na opinião deste blogueiro, Luciano foi o narrador mais completo da história da televisão brasileira. Ele não se limitava ao futebol, apenas e tão somente, como vários da atualidade. Era polivalente. E brilhante, em várias modalidades. Do boxe ao tênis, da Fórmula 1 ao judô, ele fazia de tudo. E bem-feito.

Digo isso sem medo de errar porque, felizmente, eu presenciei o auge da carreira do Luciano. Diria que no intervalo compreendido entre a Copa de 1982 e o início da década passada, o homem voava. E voou alto, em ares onde nenhum outro jornalista jamais ousou sobrevoar. Ao deixar a Rede Globo, pedindo demissão após a Copa do Mundo de 1982 e desafiar o poderio de sua antiga casa, introduzindo ao público brasileiro o vôlei ao vivo, trouxe na tela da Record, emissora pela qual passou ainda naquele ano, a ousadia de um Brasil x URSS sob chuva no Maracanã lotado por 95 mil pessoas para ver a formidável geração que tinha Zaitsev e Savin jogar contra Renan, Willian, Montanaro, Amauri e outros grandes nomes do esporte no país. E os russos perderam. E Luciano, de um dia para o outro, se tornou o dínamo do esporte na televisão brasileira.

Em 1984, na Bandeirantes, casa em que trabalhou até o fim da vida (com um pequeno hiato entre 2003 e 2006, quando voltou à Record), revolucionou o conceito de esporte na telinha. Introduziu o lendário Show do Esporte e fez história, não só com o programa, de mais de oito horas initerruptas nas tardes/noites de domingo, como também foi capaz de trazer ao nosso dia-a-dia, modalidades que nunca tinham tido projeção.

Luciano foi um pioneiro, a ponto de fazer a sinuca, dos malandros da Lapa e dos bares pouco frequentáveis, um esporte para se assistir, torcer e vibrar. Não há quem não conheça Rui Chapéu e se lembre de Carne Frita, Praça e Roberto Carlos graças a ele. No boxe, por suas mãos, vieram Chiquinho de Jesus, Luciano “Todo Duro” e Adílson “Maguila” Rodrigues. Vimos lutas lendárias de Sugar Ray Leonard com sua personalíssima voz. E presenciamos o surgimento de um fenômeno que massacrava adversários em menos de três minutos: Mike Tyson.

Não paro por aqui, não. O Luciano foi o primeiro a narrar NBA na televisão brasileira – e na TV aberta! Desfilou sua competência ao lado de Edvar Simões, narrando a histórica final entre Lakers e Boston em 1987, que me fez apaixonar de imediato pelo Showtime de Byron Scott, James Worthy, AC Green, Earvin ‘Magic’ Johnson e Kareem Abdul-Jabbar. Virei um torcedor devotado dos Lakers de Los Angeles, e o culpado disso foi o Luciano. A NFL também ganhou espaço na Band graças a ele, que narrou um Superbowl com o Washington Redskins campeão.

Pensa que acabou? Calma, gente… tem mais, muito mais: como é que todos nós conhecemos a Fórmula Indy? Claro, pela voz do Luciano do Valle. Voz de narrações épicas das vitórias de Emerson Fittipaldi nas 500 Milhas de Indianápolis e o título de 1989. Afora outros triunfos fantásticos dos nomes que sucederam o grande Rato. Ele também pode – e deve – ter o mérito de fazer de Paula e Hortência mitos do basquete, assim como Oscar Schmidt. Quem há de esquecer das narrações do Mundial de 1994, histórica conquista das meninas? Ou então do épico jogo do Pan de Indianápolis, Oscar comendo a bola e deixando os ianques atônitos diante de uma vitória inesquecível?

E não podia faltar o futebol: o Luciano criou a seleção de Masters, trouxe para os holofotes do presente (isso nos anos 80/90) velhos ídolos de um passado nem tão distante, mas que um país sem memória feito o nosso trata de enterrar na vala do esquecimento sem a maior piedade. Voltamos a vibrar com a “Patada Atômica” do Rivellino, os gols de Cláudio Adão, os lançamentos de Mário Sérgio, a bomba de Nelinho, a graça de Cafuringa… vimos Zico e Pelé ainda mostrando classe infinita. Tudo graças ao Luciano Do Valle, que não só ousou com o projeto como se tornou treinador dessa turma toda!

O esporte deve muito a ele. Com desprendimento, ousadia e personalidade, Luciano do Valle deixou a sua marca na televisão e em diversas modalidades. Fez, sozinho, muito mais do que muitos dirigentes de cargos bem-remunerados, que prometem e nada fazem.

Luciano completou 50 anos de carreira ano passado e se preparava para trabalhar em mais uma Copa do Mundo, se não me engano seria a 11ª dele como profissional de televisão – errei nas contas: ele caminhava para a 12ª. O homem de uma carreira tão longeva, tão bem-sucedida, mas que vinha prejudicada por seguidos problemas de saúde, não pensava em parar.

O esporte foi a vida desse homem. Do começo, ao fim.

É um sábado muito triste. Mesmo eu, que jamais tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, feito muitos colegas de profissão que tiveram a chance, fico arrasado.

Obrigado, Luciano do Valle. Obrigado por tudo. Só nos resta lhe pagar tributo, relembrando suas narrações que, felizmente, serão eternas.

Abaixo, alguns vídeos em homenagem a esse grande profissional da televisão e do jornalismo esportivo brasileiro.

Programa Bola da Vez, ESPN Brasil, em 24 de setembro de 2013

Antológica narração de um gol de Zico no Mundão do Arruda, numa partida entre Brasil x Iugoslávia, 1986

Copa América de 1979, num Maracanã lotado: Brasil x Argentina, com Maradona em campo

5 de julho de 1982: o dia da última narração de Luciano Do Valle pela Globo. O que ele faz no gol de Falcão arrepia, até hoje

Outro momento épico: 500 Milhas de Indianápolis, 1989. Vitória de Emerson Fittipaldi. Narração histórica do Luciano

A última corrida de Fórmula 1 que Luciano Do Valle narrou ao vivo na Globo. Título de Nelson Piquet no GP dos EUA, 17 de outubro de 1981. Inesquecível!

A voz emocionante e emocionada de um momento histórico: Brasil campeão mundial feminino de Basquete, em 1994. Auge da geração de Paula e Hortência

O incômodo viés jornalístico

ARARUAMA – Interrompo momentaneamente o meu sagrado direito à folga de fim de ano, onde estou desfrutando do sol escaldante de Araruama e virando um camarão em forma de gente, para escrever algumas linhas sobre o que ocorreu ontem com o heptacampeão mundial de Fórmula 1 Michael Schumacher.

Ocioso dizer que o alemão está em estado crítico, em coma induzido e isso todo mundo já noticiou. É de domínio público. Mas o que mais incomoda este blogueiro aqui é o viés jornalístico de uma situação impactante como esta.

Estigmatizou-se Schumacher, especialmente no Brasil, como inimigo público número #1, um demônio em forma de gente, uma pedra no sapato da pachecada, porque atrapalhava Ayrton Senna em 1994 e fez o mesmo durante muitos anos com Rubens Barrichello. Nada menos exato. Schumacher era um vencedor e mostrou isso ao longo de todo o seu tempo no automobilismo. Como todo sujeito determinado a atingir seus objetivos, passou por cima da ética e de muitos valores para chegar onde chegou.

Quem foi mesmo o agraciado com o apelido de Dick Vigarista? Quem será o vilão de enredo de escola de samba no Rio de Janeiro em 2014?

Mas Michael é humano como todos nós. E, encerrada a carreira, podia muito bem curtir os filhos Mick e Gina, a mulher Corinna e desfrutar uma merecida aposentadoria sem fazer absolutamente nada. Ocorre que, após décadas vivendo a linha tênue entre a vida e a morte, Schumacher convive e continuou convivendo com o risco, mesmo retirado do automobilismo. E aí, numa queda de esqui, aconteceu o que todo mundo já sabe.

Falo tudo isso porque me indigna a pouca importância que se dá a um incidente como este, em paralelo ao ocorrido com o lutador de MMA Anderson Silva, em Las Vegas.

Respeito a quem opta por gostar de MMA. Não é o meu caso, nem nunca será, por uma questão óbvia. Não me atrai ver dois caras num octógono se surrando até quase a morte. Anderson Silva, a exemplo de Schumacher, também convive com o risco. Não só de perder a vida, como também de sofrer lesões graves feito a fratura dupla de sua perna esquerda, na luta contra Chris Weidman no último sábado.

Porém, a notícia do ocorrido com o “gladiador do terceiro milênio”, como diz um filósofo, é fichinha perto do que aconteceu com Schumacher e a notícia da fratura do lutador foi tratada como se fosse uma tragédia, uma hecatombe. O alemão luta pela vida e a cobertura da mídia brasileira é rasteira, para não dizer simplesmente medíocre – salvo honrosas exceções.

Eu gostaria de saber o seguinte: caso fosse um brasileiro a sofrer o acidente de esqui e tivesse ele sete títulos mundiais, quem seria notícia? A questão agora é o interesse sobrepujando o bom jornalismo?

Que pena que as coisas caminhem num mau sentido. O ano de 2013 se encerra da pior maneira possível. Para o esporte e, pasmem, para o jornalismo.

Ah… e antes que eu me esqueça: eu considero automobilismo esporte SIM, da mesma forma que os defensores do MMA o reputam como tal.

Vou voltar à minha folga. E boa noite a todos.

Blogueiro na Monet

1441587_3705966305766_1840912468_nRIO DE JANEIRO – Para minha grata surpresa, fui convidado pelo Humberto Peron, da Editora Globo, a escrever um artigo sobre Sebastian Vettel para a revista Monet. Pois o artigo já está nas bancas, nas páginas 76 e 77 da publicação neste mês de novembro. Agradeço ao Peron pelo convite e fico feliz porque não é todo dia que a gente tem o nosso nome assinando uma matéria de automobilismo – ainda mais numa revista que não é especializada no assunto e fala, como todo mundo sabe, da programação televisiva.

Foto: reprodução Instagram (Rodrigo Mattar)

Que saudade, Zampa… que saudade…

1150256_10151639433007736_241975153_nRIO DE JANEIRO – A melhor forma que a Racing encontrou para homenagear o saudoso Marcus Zamponi: sem palavras, sem texto, sem nada, na última página onde o jornalista assinava sua coluna intitulada “E tenho dito”. Um vazio impreenchível. E só nos resta a saudade. Um abraço do “turco filho da puta” pra você, Zampa, onde quer que esteja.

 

Ao mestre, com carinho

1318_624286490924006_1322162207_n

RIO DE JANEIRO – Estou devastado.

Acabo de saber via Miltão Alves da notícia da morte do querido Marcus 
Zamponi, o grande Zampa, um dos maiores jornalistas de automobilismo do país. Gravemente enfermo, sucumbiu a um câncer (sempre esta doença fatal…) e faleceu hoje em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.

Batizado Marcus Cícero Zamponi há 63 anos (ainda tinha muita estrada pra percorrer, pombas…), o “gordo”, como era conhecido por todos nós, era um tarado pelo esporte que amamos. Talvez o mais tarado dentre os que conheci. Um apaixonado que largou tudo no Brasil, o Rio de Janeiro e a Ilha do Governador e se aventurou trabalhar para escroques como Max Mosley e Sandro Angeleri, seus patrões na March nos anos 70.

Certamente aprendeu um bocado, viu e ouviu muita coisa e compartilhou grandes, maravilhosas histórias como uma de um teste onde o Vittorio Brambilla, após comer dois pratos inteiros de massa e beber uma garrafa inteira de vinho, inconformado com um piloto que quebrara sua marca num teste de Fórmula 1, entrou no carro para melhorar o tempo e… bateu. Mais Brambilla – e mais Zampa – impossível.

Nos anos 80, quando comecei, taradinho de dez, onze anos que já era por automobilismo, a comprar os exemplares da Auto Esporte (não perdia um), cuja editora era na Felisbelo Freire, em Ramos, bairro onde nasci e cresci, achava do cacete os textos do Zampa. Sem desmerecer ninguém da área, e acho que todos concordam, o melhor texto do jornalismo automobilístico brasileiro em qualquer tempo. Escreveu páginas inesquecíveis do nosso esporte. E até arriscou algumas incursões como repórter em provas da Stock Car, na Bandeirantes. Acho que o próprio Zampa viu que não era do ramo e seguiu com sua pena ainda mais afiada.

Trabalhou com tudo que estivesse ao seu alcance, com a competência que Deus lhe premiou. Desconheço algum colega da imprensa que não gostasse daquela figura engraçada que não perdoava ninguém. Nem mesmo o compadre Lito Cavalcanti, de quem falava “cobras e lagartos”, mas pelas costas – claro – porque cara a cara, a admiração saltava aos olhos e era, certamente, recíproca.

Eu não sei precisar em que corrida nos conhecemos. Provavelmente lá pelo fim dos anos noventa e aqui no Rio de Janeiro. Guardo com carinho as intermináveis gozações do Zampa para comigo e com o Amir Nasr. A nós, netos e descendentes de libaneses, ele não perdoava e, abusado, chamava nós dois de “turcos filhos da puta”, com aquela voz de baixo profundo que era uma marca registrada nos autódromos. Ele cutucava na ferida da nossa origem porque sabia que nós detestamos ser chamados de turcos. Mas tínhamos que levar na esportiva. O Zampa era assim, um tirador de sarro por excelência.

Foi aquela figura que, numa premiação do Capacete de Ouro da revista Racing, da qual foi colaborador até os últimos dias de sua vida, que me chamou num “particular” e disse pra eu liderar uma salva de palmas – de pé – para o querido Luiz Pereira Bueno, o saudoso “Peroba”. Não me fiz de rogado. Quando o Luizinho foi chamado ao palco, levantei-me da minha cadeira e o aplaudi de pé. Quase todo mundo no recinto fez o mesmo, emocionando o “Peroba”.

Hoje, quem merece o nosso aplauso é o Zampa. O nosso aplauso e o nosso agradecimento, por tudo o que fez no jornalismo esportivo. Um mestre ao escrever, um cara de quem todos nós vamos guardar as melhores e mais divertidas lembranças. Porque o que se leva da vida é o que a vida tem de melhor.

Zampa, muito obrigado. Você foi inspiração para muitos de nós. Com certeza, da minha parte, nunca vou esquecer dos papos que tivemos. E com sua morte, meu caro, se vai uma grande parte das histórias do nosso automobilismo.

Aliás, concordo ipsis litteris com o craque da fotografia, Luca Bassani.

“O automobilismo acordará mais burro amanhã”.

Valeu, mestre! Vá em paz…

(Foto de Vinícius Nunes)

Magnum Pendrive

550059_559608427390665_687772326_nUm oferecimento da Lotus para os jornalistas neste fim de semana de início de temporada da Fórmula 1 na Austrália: pendrive em forma de sorvete Magnum, o favorito do Kimi Räikkönen, que já ofereceu para a mídia a guloseima, no ano passado. Isso é tratar a imprensa com simpatia e ganhar a atenção da mídia.

Luiz Noriega (1930-2012)

RIO DE JANEIRO – Acabo de saber no facebok mais uma triste notícia nos estertores de 2012. Morreu nesta quarta-feira, aos 82 anos, o locutor e jornalista Luiz Noriega, pai do excelente comentarista Maurício Noriega, do SporTV. O paulista de Nova Aliança, na região de São José do Rio Preto, a 461 km da capital, foi um dos maiores nomes do jornalismo esportivo brasileiro.

De voz marcante, inconfundível, Luiz Noriega deixou sua marca por onde passou, desde o começo da carreira em Olímpia, também no interior paulista, passando por Recife até chegar à Rádio e TV Tupi. Na emissora dos Diários Associados, comandou a equipe de esportes da pioneira na televisão brasileira.

Saiu dos Associados e foi para a TV Cultura, onde ao lado de outro ícone do jornalismo esportivo brasileiro, Orlando Duarte, implantou o primeiro notíciário esportivo na hora do almoço – É hora de esporte – e o Esportevisão, precursor de tantos outros programas do gênero que viriam a surgir depois de 1969.

Não obstante, as transmissões narradas por Luiz Noriega traziam dinamismo, com a adoção do videotape e do cronômetro na tela, o que seria seguido também por diversas emissoras.

Tenho certeza absoluta do orgulho que o querido amigo Maurício Noriega tem de seu pai em vida e após-vida também. Luiz Noriega foi, creio eu, o grande espelho do Nori. E o pai, o maior orgulho que um filho poderia ter.

“Taí o primeiro gol!”

Agora, lá no andar de cima…