Sua Majestade, Jair Rodrigues

Aperte o Play! Jair RodriguesRIO DE JANEIRO – Jair Rodrigues de Oliveira era daquelas pessoas que a gente achava que iria ficar por muito tempo neste plano, nesta vida. Pelo menos era a minha impressão, pois sempre percebi nele uma alegria infinita de viver. O “Cachorrão”, como era conhecido, transpirava simpatia e sorrisos, com quem quer que fosse.

Mas hoje, qual não é a nossa surpresa ao saber que o Jair Rodrigues se foi.

Setenta e cinco anos de idade, mais de cinquenta de carreira. Dois filhos – Luciana Mello e Jairzinho – que seguiram os passos do pai, orgulhosos do ídolo e referência. Um artista avant la lettre: foi o nosso primeiro rapper – alguém tem dúvidas disso? – com o clássico “Deixa isso pra lá”, aquele das mãozinhas pra cima e pra baixo. Ele foi também um grande intérprete de sambas, que na verdade pontuaram mais a sua carreira nos palcos e nos discos, mas como bom sujeito nascido em Igarapava, no interior de São Paulo, foi amamentado pelas modas de viola – que cantava com a alma, com o coração.

Por ser um intérprete versátil, carismático e sobretudo divertido, Jair foi requisitado para participar do histórico programa O Fino da Bossa com Elis Regina e os não menos históricos discos Dois na Bossa, que o alavancaram para o patamar das grandes estrelas da MPB. Embora Ronaldo Bôscoli tivesse sérias restrições ao jeitão de Jair, que era um tanto quanto espalhafatoso, a dupla fazia sucesso – até que as circunstâncias os separaram.

Jair foi também figura de proa na Era de Ouro dos Festivais de MPB. No de 1966, imortalizou a “Disparada” de Théo de Barros e Geraldo Vandré, tornando-a um clássico, talvez a maior música sertaneja da história. Também foi protagonista involuntário da confusão envolvendo a canção “O combatente” (cuja torcida organizada vaiou a desclassificação da música, provocando uma quizumba no Teatro Paramount), no ano seguinte e defendeu “A família”, música escrita por Ary Toledo e Chico Anysio, junto aos Golden Boys em 1968 – ano em que também participou de forma brilhante na interpretação de “Canto chorado” (Billy Blanco), com os Originais do Samba.

Ao todo, foram 43 discos lançados como intérprete, incluindo a série Dois na Bossa. Em muitos deles, Jair imortalizou com sua voz sambas lendários como “Tristeza”, “Foi um rio que passou em minha vida”, “Festa para um rei negro”, “Orgulho de um sambista”, “Diz que eu fui por aí”, “Saudosa maloca”, “Sou da madrugada”, “As quatro estações do ano”, “Lendas do Abaeté” e por aí afora.

Mas as modas de viola, vez ou outra, eram lembradas e igualmente imortalizadas na sua voz. Quem há de esquecer d’ele cantando “A majestade, o sabiá” e “Menino da porteira”? Difícil… muito difícil.

A voz de Jair Rodrigues se cala, infelizmente, neste 8 de maio de 2014. A música brasileira fica, a cada dia, mais triste e mais pobre.

Ficarão para sempre as canções e a saudade.

Dê um beijo na Elis e um abraço no Vina, “Cachorrão”. E avise para eles que a coisa tá cada vez mais preta. Mas a gente vai levando…

“Aqui quem fala é da Terra…”

Elis-Regina

RIO DE JANEIRO – Dezessete de março. Se viva fosse, Elis Regina Carvalho Costa, a maior cantora da história da música brasileira em qualquer tempo, teria completado hoje 69 anos de idade.

Aliás, a quem interessar possa, a Pimentinha tem a carreira contada num musical que estreou em São Paulo com casa cheia e presenças de Jair Rodrigues, João Marcello Bôscoli e Pedro Camargo Mariano na plateia. Coisa fina, com as canções que a gaúcha interpretou desde “Arrastão”, quando explodiu no Festival da Excelsior, passando pela época do musical O fino da Bossa, pelos dois casamentos, pelos brilhantes trabalhos de sua carreira, desaguando no triste fim em 1982, quando partiu desta vida para o outro plano, pouco antes de completar 37 anos.

É graças à data que poderia ser festiva que o blog homenageia Elis com o videoclip de “Alô Alô Marciano”, que se tornou um clássico graças à interpretação cheia de scatscomics que ela impõs à canção composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho.

Discos eternos – Tim Maia (1970)

Capa Tim Maia 1970

RIO DE JANEIRO – Enquanto nos anos 60, a Jovem Guarda dava seus últimos suspiros e Roberto Carlos partia célere para assumir o posto de artista mais popular do país, um mulato gordinho, que passou parte da adolescência nos EUA tentava a sorte na música cantando em inglês. E principalmente, investindo num gênero que ainda não tinha espaço por aqui: a Soul Music.

O mulato gordinho em questão era Tim Maia, nascido e criado na Tijuca, amigo de Erasmo Carlos, com quem trocava cartas entusiasmadas quando esteve fora do país. Um assinava “Tim Jobim” e o outro devolvia como “Erasmo Gilberto”. Mas enquanto Erasmo virava o Tremendão e amigo-de-fé-irmão-camarada de Roberto, Tim passava o pão que o diabo amassou. Foi preso, deportado e passou fome e frio em São Paulo até conseguir a indicação de Roberto para gravar na CBS.

Sob a produção do exigente Evandro Ribeiro, Tim não conseguiu fazer suas músicas saírem como queria. Brigou com geral na gravadora e virou persona non grata. Na RGE, para onde iria por intermédio de Erasmo, tentar fazer um compacto e depois o primeiro – e sonhado – disco, aconteceu a mesma coisa e Tim, sabendo que sua hora tinha chegado na música brasileira, ficava para trás.

Foi aí que a sorte lhe sorriu: uma fita levada por Jairo Pires, que o conheceu na CBS como técnico de gravação e que estreava na Philips como produtor, estourou como uma bomba numa das reuniões mensais. Nela estava gravada a sensacional “Primavera”, de Sílvio Rochael e Cassiano. Naqueles idos anos, nada parecido se ouvira por aqui.

Quando o inverno chegar… eu quero estar junto a ti… pode o outono voltar… eu quero estar junto a ti… porque… é primavera… te amo… é primavera… te amo… meu amor…

Nelson Motta, que ouviu a fita entusiasmado, sentiu “cheiro de gol” e pediu que Tim aparecesse na Philips. Ele foi, e mostrou outras músicas. Uma delas, a bossa-nova “These Are The Songs”, saiu em compacto com Elis Regina e Tim, aprovadíssimo pelos Mutantes (que os conheciam do programa Quadrado & Redondo, apresentado por Débora Duarte e Sérgio Galvão na Bandeirantes) e também por Erasmo Carlos, que saía da RGE nessa mesma época e mudava para a gravadora dirigida por André Midani, foi contratado para fazer seu primeiro disco.

Movido a combustíveis alternativos, Tim varou noites no Estúdio Scatena em São Paulo, junto com Jairo Pires e Arnaldo Saccomani, para conseguir que os músicos fizessem o som que queria, e que os maestros Waltel Branco, Waldyr Arouca Barros e Cláudio Roditi transcrevessem os arranjos que o cantor lhes passavam “de boca”.

Com o auxílio luxuoso do conjunto vocal Os Diagonais (que tinha Cassiano, guitarrista-base das gravações, além de Camarão, Marcos e Fernando) e de músicos como o lendário baixista Capacete, Paulinho Batera, Zé Carlos, Guilherme, Garoto e Carlinhos, Tim foi o responsável por um dos maiores petardos musicais do país nos anos 70.

O disco abre com “Coroné Antônio Bento”, uma brincadeira de Camarão, um dos vocalistas dos Diagonais, que caiu no gosto de Tim imediatamente. Nascia uma fórmula que o cantor exploraria nos seus primeiros trabalhos: o baião-soul.

“Cristina”, escrita em parceria com Carlos Imperial, teria sido uma homenagem a uma bela morena chamada… Cristina e que, segundo a lenda, tinha um bumbum descomunal, que enlouquecia o cantor. ‘Vou ver Cristina…’, cantarolava com cara safada, seguindo o rebolado de sua musa. Mas há quem diga, como o biógrafo de Imperial, Denílson Monteiro, que ‘Vou ver Cristina…’ era uma senha para sair do apartamento do compositor e ‘apertar um baseado’. Imperial era avesso a tóxicos e Tim Maia não dispensava um bauretezinho.

O funk “Jurema”, a terceira faixa, é uma menção à famosa entidade Cabocla Jurema, saudada como Joo-rey-mah Queen of The Jungle. Curtinha, mas muito bacana – tanto quanto “Padre Cícero”, uma das melhores do disco e cuja métrica Tim aproveitou para transformar a canção em “João Coragem”, tema do personagem homônimo da novela Irmãos Coragem, grande sucesso da televisão brasileira naquele ano.

Tim ainda gravou uma bonita canção de Natal – “Risos” (de Fábio e Paulo Imperial), “Eu Amo Você”, outra lindíssima composição de Cassiano e Sílvio Rochael, além da belíssima balada “Azul da Cor do Mar”, que teve como inspiração as inúmeras desilusões que o cantor, auto-intitulado preto, gordo e cafajeste, sofria com as meninas que iam para o apartamento onde morava, na Rua Real Grandeza, 171, em Botafogo, para ficar com o cantor Fábio e seu empresário, Glauco.

Com raiva e sentimento, Tim ligava o gravador e, acompanhado do violão, mandava ver.

Ah… se o mundo inteiro me pudesse ouvir… tenho tanto pra contar… dizer que aprendi… que na vida a gente tem que entender… que um nasce pra sofrer… enquanto o outro ri… mas quem sofre sempre tem que procurar… pelo menos vir achar… razão para viver… ter na vida um motivo pra sonhar… ter um sonho todo azul… azul da cor do mar…

Nascia assim o mestre da “cornitude” e Tim Maia começava, com este primeiro e fantástico disco, sua trajetória polêmica e ao mesmo tempo brilhante dentro do cenário musical brasileiro.

Ficha Técnica de Tim Maia
Selo: Polydor/Universal Music
Produção: Jairo Pires e Arnaldo Saccomani
Gravado nos Estúdios Scatena, em São Paulo, e no Cineac-Trianon, no Rio de Janeiro, em 1970
Tempo total de produção: 40’55″

Músicas:

1. Coroné Antônio Bento (Luiz Wanderley/João do Vale)
2. Cristina (Tim Maia/Carlos Imperial)
3. Jurema (Tim Maia)
4. Padre Cícero (Cassiano/Tim Maia)
5. Flamengo (Tim Maia)
6. Você Fingiu (Cassiano)
7. Eu Amo Você (Sílvio Rochael/Cassiano)
8. Primavera (Vai Chuva) (Sílvio Rochael/Cassiano)
9. Risos (Fábio/Paulo Imperial)
10. Azul da Cor do Mar (Tim Maia)
11. Cristina nº 2 (Carlos Imperial/Tim Maia)
12. Tributo a Booker Pittman (Cláudio Roditi)

Discos eternos – Os afro-sambas (1966)

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RIO DE JANEIRO – Quando Vinícius de Moraes se autointitulava “o branco mais negro do Brasil”, era bem difícil duvidar das palavras do poetinha.

Mas a negritude do Vina só viria à tona quando foi presenteado por Carlos Coqueijo, compositor bissexto e juiz do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia com um disco contendo sambas de roda, pontos de candomblé e toques de berimbau que o encantaram de modo que ele não só passou a se intitular enfaticamente um filho de Oxalá e na linha direta de Xangô como, anos depois, se casaria com a baiana Gessy Gesse e fixaria residência naquele estado.

Voltando algum tempo antes de 1965, Vinícius, desejoso de transformar aquela inspiração toda em música, chamou Baden Powell para compor com ele. Os dois se trancaram no apartamento do poetinha no Parque Guinle, em Laranjeiras e, após beberem caixas e mais caixas de uísque Haig, saíram de lá com 25 canções prontas – oito delas dariam forma ao que seria o disco Os afro-sambas, gravado em 1966 e distribuído pelo selo Forma, de Roberto Quartin.

A produção é um espetáculo. As canções não se limitam ao básico de voz e violão em matéria de arranjos, trazendo instrumentos percussivos como atabaques, bongôs, afoxés, agogôs e pandeiros. O maestro Guerra Peixe foi o responsável pelos arranjos e pela regência nas gravações, que contaram ainda com a luxuosa participação do grupo vocal feminino Quarteto em Cy – que, por sinal, continua existindo até hoje.

Os afro-sambas produziu um clássico instantâneo da MPB, “Canto de Ossanha”, de múltiplas regravações ao longo de quase 50 anos. Havia também os cantos de Xangô, Iemanjá e do Caboclo da Pedra-Preta, pontuando o disco, que tem também as maravilhosas “Tristeza e solidão” e “Tempo de amor”, esta última uma das mais bonitas canções da parceria Vinícius-Baden, que ainda nos ofertaria canções como “Samba em Prelúdio”, “Berimbau” e tantas outras que fizeram a delícia dos ouvintes e história na música popular brasileira.

Ficha técnica de Os afro-sambas
Selo: Forma/Companhia Brasileira de Discos
Gravado em 1966
Produzido por Roberto Quartin e Wadi Gebara
Tempo: 32’42”

Músicas:

1. Canto de Ossanha
2. Canto de Xangô
3. Bocoché
4. Canto de Iemanjá
5. Tempo de amor
6. Canto do Caboclo da Pedra-Preta
7. Tristeza e solidão
8. Lamento de Exu

Samurai

RIO DE JANEIRO – Com auxílio luxuoso de Stevie Wonder, que gravou os trechos com gaita da canção, Djavan estrondou em 1982 com sua “Samurai”, vista aqui num protoclipe do Fantástico. O alagoano, cuja carreira começou com uma boa forcinha de uma emissora de televisão, que pôs música dele em trilha sonora de novela (“Alegre menina”), despontou em 1975 com “Fato consumado” – 2ª colocada do festival Abertura e depois com “Flor de Lis”.

“Samurai” é o clip da semana, pois.

Discos eternos – Phono 73, o canto de um povo (1973)

Phono73

RIO DE JANEIRO – Até 1972, os Festivais de Música promovidos pelas emissoras brasileiras de televisão, com poucas exceções, foram um grande esteio de canções, compositores e intérpretes para este país. Devemos a este tipo de evento o surgimento de gente como Chico Buarque de Hollanda, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes e muitos outros.

Como o radicalismo e a intolerância estavam muito em voga até nos festivais competitivos, em tempos de ditadura, o interesse se esvaiu e quem pegou o mote no ar foi André Midani, o dinâmico presidente da Philips no Brasil. Com a ajuda de um “grupo de trabalho” encabeçado por Nelson Motta, Armando Pittigliani, Roberto Menescal e Artur da Távola, estabeleceu conceitos entre os artistas e a gravadora soube dividir muito bem o seu cast com artistas de prestígío e outros mais populares. Dentro dessa receita de sucesso, Midani incentivou a realização de um festival não-competitivo só com artistas da própria Philips: nasceu o Phono 73.

De 11 a 13 de maio daquele ano, os principais artistas da companhia estiveram presentes no Palácio das Convenções do Anhembi, escolhido não por acaso. As instalações estavam sendo inauguradas e o auditório com 3,5 mil lugares disponíveis lotou em todas as noites de shows.

A Philips enfrentou uma série de dificuldades com a logística e com otras cositas más. Os spots da iluminação, feita por Ziembinski a pedido de André Midani, graças à  experiência do velho Zimba no teatro brasileiro, explodiam a três por dois. Mas a preocupação maior não era com a luz ou a falta dela. E sim com a quantidade de meganhas à paisana que circulavam pelo auditório do Anhembi, certamente escaldados pela presença de artistas que poderiam criar algum tipo de polêmica.

O Phono 73 previa apresentações individuais dos artistas e alguns deles se reuniriam em duplas para tocar uma ou mais músicas. E uma dessas duplas fez muito barulho: Gilberto Gil e Chico Buarque de Hollanda.

Os dois tinham a pretensão de apresentar a inédita – e também censurada “Cálice”, com uma aliteração bem audível para os militares. Era meio que um cale-se para os que detinham o poder no país, sacaram? Para nenhuma surpresa, o som foi cortado direto da mesa a mando dos policiais, o MPB-4 ajudava trocando os microfones de Chico Buarque e um a um eles foram sendo desligados. Até que o compositor e Gil finalmente desistiram de tocar a canção.

“Vamos ao que pode”, resignou-se Chico, sabendo que também teria o som cortado se cantasse coisas como “Ana de Amsterdam”, com a história lésbica entre Ana e Bárbara, a esposa de Calabar – da também proibida peça “Calabar, o elogio da traição”.

Furioso, Buarque cantou “Cotidiano” e o rock “Baioque”, com o auxílio do MPB-4. Revoltado com a interferência da censura, chamou-a de f… da p… ao fim de sua apresentação. Audacioso, não?

A censura, aliás, papava mosca onde menos se esperava dela. O mesmo MPB-4 apresentou “Pesadelo”, da dupla Paulinho Tapajós e Paulo César Pinheiro, que começava assim:

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Incrível como uma canção destas não foi censurada e pôde ser cantada no Phono 73.

Politizada e passional, a plateia do Anhembi encarou com desdém alguns dos artistas escalados e vaiou vários deles. Sobrou até para Elis Regina que, por ter aceitado cantar na Olimpíada do Exército em 1972, foi ‘enterrada’ por Henfil no Cemitério dos Mortos-Vivos da personagem Cabôco Mamadô, n’O Pasquim. A Pimentinha enfrentou os apupos com altivez antes de cantar “Cabaré”, da dupla revelação daqueles anos formada por João Bosco e Aldir Blanc, sendo defendida veementemente por Caetano Veloso. “Respeitem a maior cantora do Brasil. Respeitem Elis Regina. Respeitem a música popular brasileira.”

Gal, Nara, Melodia, Caetano, Bethania e... Odair Jose

Registre-se também que o baiano provocou uma boa dose de polêmica no Phono 73. Além de criticar a plateia, dizendo que ‘não existia nada mais Z do que um público classe A’, chamando o evento por tabela de Caphono 73, Caetano fez o dueto mais provocativo e surreal de todo o evento, com Odair José, o “Terror das Empregadas”, que mesmo sendo um artista da corrente brega, taxada de alienada pela turma mais radical de esquerda, sofria censura em decorrência das temáticas polêmicas de algumas de suas músicas, principalmente “Pare de tomar a pílula”.

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Os dois se encontraram num sítio do interior de São Paulo, por iniciativa de Caetano, que queria se apresentar ao lado de Odair e provocar polêmica, atingindo seu intento, pois “Eu vou tirar você desse lugar”, canção apresentada pelos dois, foi vaiadíssima. Odair não se vexou. Mesmo ‘proibido’ e já que o parceiro de palco, revoltado com as vaias, caiu fora de cena, cantou “Pare de tomar a pílula”. Mais vaias.

O Phono 73 teve coisas interessantes, como Maria Bethânia e Gal Costa dividindo microfones numa emocionada interpretação de “Oração a mãe menininha”, de Caymmi, que acabou com as duas se beijando na boca; Toquinho e Vinícius desfilando grandes composições feito “Regra três”, “Samba de Orly” e “Meu pai Oxalá”; Ronnie Von com “Vai depressa”; o emergente talento de Raul Seixas na anárquica apresentação de “Loteria de Babilônia”, Jorge Benjor (ainda Jorge Ben) eletrificando e suingando sua “Mas que nada”, integrando-a com “É de manhã”, de Caetano Veloso, e até mesmo Wilson Simonal, que já estava em processo de fritura no meio artístico, cantando o “Hino ao Senhor”, composição de Tony Osanah, antigo integrante dos Beat Boys.

Interessante notar que, na capa do álbum triplo originalmente lançado, depois convertido para dois CDs (que ganharam um inédito registro em DVD graças a um material que nunca tinha sido editado e que pertence ao acervo de Guga de Oliveira, irmão de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), constava na arte as imagens de Hermeto Paschoal, Luiz Melodia, do grupo nordestino Quinteto Violado, Os Mutantes e Rita Lee, que ficaram de fora do disco. Os motivos que levaram estes últimos a não figurar com suas faixas são óbvios: ainda em 73, Os Mutantes foram dispensados da gravadora. E Rita Lee, que tocou em dueto com Lúcia Turnbull formando as chamadas Cilibrinas do Éden, fez uma apresentação que beirou o melancólico. Nada aos pés do que ela faria como a rainha do rock brasileiro.

Ficha técnica de Phono 73, o canto de um povo
Selo: Philips/Mercury/Universal Music
Produção de Nelson Motta, Roberto Menescal e Armando Pittigliani
Gravado ao vivo de 11 a 13 de maio de 1973 no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo

Músicas:

Disco #1

1. Regra três (Vinícius de Moraes) [Toquinho e Vinícius]
2. Samba de Orly (Chico Buarque de Hollanda) [Toquinho e Vinícius]
3. Orgulho de um sambista (Gilson de Souza) [Jair Rodrigues]
4. Sou da madrugada (Gilson de Souza/Wando) [Jair Rodrigues]
5. Hino ao Senhor (Tony Osanah) [Wilson Simonal]
6. Rock da barata (Jorge Mautner) [Jorge Mautner]
7. Tudo se transformou (Paulinho da Viola) [Caetano Veloso]
8. Eu vou tirar você desse lugar (Odair José) [Caetano Veloso e Odair José]
9. Vai depressa (Willy Verdaguer) [Ronnie Von]
10. Loteria de Babilônia (Raul Seixas/Paulo Coelho) [Raul Seixas]
11. Me acende com teu fogo (Erasmo Carlos/Roberto Carlos) [Erasmo Carlos]
12. Medley – Sentado à beira do caminho (Erasmo Carlos/Roberto Carlos)/Foi assim (Renato Corrêa/Ronaldo Corrêa)/Festa de arromba (Erasmo Carlos/Roberto Carlos) [Wanderléa e Erasmo Carlos]
13. É com esse que eu vou (Pedro Caetano) [Elis Regina]
14. Ladeira da preguiça (Gilberto Gil) [Elis Regina e Gilberto Gil]
15. Filhos de Gandhi (Gilberto Gil) [Gilberto Gil]
16. Medley – Mas que nada (Jorge Benjor)/É de manhã (Caetano Veloso) [Jorge Benjor]

Disco #2

1. Zumbi (Jorge Benjor) [Jorge Benjor]
2. Não tem perdão (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza) [Ivan Lins e MPB-4]
3. Pesadelo (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro) [MPB-4]
4. A alegria continua (Noca da Portela/Mauro Duarte) [MPB-4]
5. Baioque (Chico Buarque de Hollanda) [Chico Buarque]
6. Manera, fru-fru, manera (Raimundo Fagner) [Fagner]
7. Jazz potatoes (Jorge Benjor) [Jorge Benjor e Gilberto Gil]
8. Diz que eu fui por aí (Zé Keti) [Nara Leão]
9. Quinze anos (Naire/Paulinho Tapajós) [Nara Leão]
10. Movimento dos barcos (Jards Macalé/Capinam) [Jards Macalé]
11. Trem das onze (Adoniran Barbosa) [Gal Costa]
12. Sebastiana (Rosil Cavalcanti) [Gal Costa]
13. Oração de Mãe Menininha (Dorival Caymmi) [Gal Costa e Maria Bethânia]
14. Preciso aprender a só ser (Gilberto Gil) [Maria Bethânia]
15. Trampolim (Maria Bethânia/Caetano Veloso) [Maria Bethânia]
16. A volta da Asa Branca (Luiz Gonzaga) [Caetano Veloso]

Discos eternos – Som Imaginário (1971)

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RIO DE JANEIRO – Confesso que até o reveillón de 1996/1997, desconhecia por completo a existência de um grupo brasileiro chamado Som Imaginário. Em pleno 1º de janeiro, com o som da festa devidamente levado de volta por seu dono para o Rio de Janeiro (a passagem de ano foi em Petrópolis, com dezenas de amigos, num casarão da família de uma amiga minha de faculdade), nos restou apenas uma velha vitrola e discos mais velhos ainda, onde despontavam Colosseum, Camel, Caravan e Som Imaginário.

Eu e um conhecido daquela época, que acho que se tornou músico, fomos ver qual era a desse grupo e ao ouvir a primeira faixa, demos muito boas risadas. Afinal de contas, o que tinha de interessante uma música que dizia “eu vou plantar cenouras na sua cabeça”? Fácil: muita coisa.

Tempos depois, vim descobrir que o Som Imaginário surgira em Minas no fim dos anos 60, para ser a banda de apoio de ninguém menos que Milton Nascimento. O grupo era formado por – vejam bem a turma – Fredera na guitarra-solo (à época assinando Frederyko), Tavito no violão e na guitarra-base, Luiz Alves no baixo, Wagner Tiso no piano e órgão, Zé Rodrix no piano, órgão, flauta e vocais, e Robertinho Silva na bateria. Laudir de Oliveira foi chamado para ser o percussionista, mas durou pouco tempo na função: foi excursionar com o Brazil 69 de Sérgio Mendes.

Essa turma toda tocou em 1970 no famoso show Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário, um espetáculo que foi bem-sucedido e provou que o Som Imaginário era mais do que uma simples banda de apoio, com boas possibilidades até de conseguir contratos para gravar discos. Nesse mesmo ano, o grupo participou do FIC da TV Globo com “Feira Moderna”, composição de Fernando Brant e Beto Guedes. Foram para a final, mas como correu um boato que “BR-3″, de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo, com Toni Tornado e o Trio Ternura cantando, venceria a fase nacional do festival, eles não se conformaram: tocaram uma versão fake com um só acorde e sem nenhum sentido.

Apesar disto, “Feira Moderna” fez parte do primeiro álbum do grupo, que veio à luz nesse mesmo ano de 1970. Nesse primeiro trabalho, o Som Imaginário não flertava com o que se convencionava chamar de MPB: era uma mistura poderosa de Beatles, com psicodelia, rock progressivo e a cultura hippie que “fazia a cabeça” da moçada mais jovem.

Divididos entre o grupo e trabalhos paralelos com outros artistas – inclusive Milton Nascimento – os integrantes do Som Imaginário tiveram que se virar sem Zé Rodrix, que sairia do grupo para formar o trio Sá, Rodrix e Guarabyra. Sem ele, o líder natural passou a ser Fredera, que cantou em praticamente todas as faixas do disco de 1971.

A abertura é com a sensacional “Cenouras”, supracitada, onde Fredera e Tavito capricham nas guitarras e o primeiro solta a pérola-mor do disco: eu vou plantar cenouras na sua cabeça… É só a tônica do que o ouvinte poderia encarar nas sete faixas seguintes. Em “Você tem que saber”, com uma levada típica de música regional e farta percussão, o grupo flerta com a MPB renegada no disco anterior, num resultado surpreendentemente bom.

O escracho dá o tom na terceira música. “Gogó (O alívio rococó)” começa com uma seqüência de gritos initeligíveis, pratos, bateria, percussão, acordes dissonantes e uma letra absolutamente hilária que termina assim: Rococó… meu gogó… tua avó… pão-de-ló… bororó… curió… no filó… Sensacional!

“Ascenso” é uma faixa que remete ao disco de estréia de outro grupo que bebia na fonte do prog rock: O Terço. Com um vocal espetacular de Fredera e a belíssima letra de Fernando Brant, é uma das melhores de todo o álbum, com um arranjo caprichadíssimo de Wagner Tiso.

Outro grande destaque é “Salvação pela macrobiótica”, um canto falado engraçadíssimo e anárquico que começa falando do feijão nosso de cada dia e depois embarca numas de que bom mesmo é ficar meditando e comendo arroz integral. A sexta faixa é também de dois mineiros que seriam fornecedores de canções do movimento do Clube da Esquina: Chico Lessa e Márcio Borges compuseram “Ué”, outra com letra viajandona e excelente performance de Tavito e Fredera nas guitarras, além da competentíssima cozinha formada por Luiz Alves e Robertinho Silva.

“Xmas Blues”, como o próprio nome sugere, é um blues que remete a Natal e congêneres, em nova letra hilária de Fredera que diz que o algodão branco imita a neve irreal – provavelmente porque em Minas Gerais neve é artigo inexistente. Por fim, o disco encerra com “A nova estrela”, belíssima composição de Fredera e Wagner Tiso, com o piano e o órgão tocados por este último em absoluto destaque.

Uma senha para o que seria o disco seguinte do grupo – Matança do Porco, gravado em 1973, que seria também o divisor de águas para a carreira de Wagner Tiso. O Som Imaginário ainda tocaria em Milagre dos Peixes, grande álbum de Milton Nascimento algum tempo depois e os fãs mais extremados consideram que este é o quarto e último trabalho de uma banda que deixou sua marca na música moderna brasileira.

Pena que durou tão pouco tempo.

Ficha Técnica de Som Imaginário
Selo: EMI-Odeon
Produzido por Milton Miranda
Gravado nos estúdios da EMI-Odeon no primeiro semestre de 1971
Tempo total: 31’47″

Músicas:

1. Cenouras (Frederyko)
2. Você tem que saber (Chico Lessa/Márcio Borges)
3. Gogó [O alívio rococó] (Frederyko/Wagner Tiso)
4. Ascenso (Fernando Brant/Frederyko)
5. Salvação pela macrobiótica (Frederyko)
6. Ué (Chico Lessa/Márcio Borges)
7. Xmas blues (Frederyko)
8. A última estrela (Frederyko/Wagner Tiso)

Quinze anos de saudade

RIO DE JANEIRO – Este blog, embora trate de esporte a motor em 90% das ocasiões, também é um pouco musical. E hoje, há exatamente 15 anos, chorávamos a perda da maior voz masculina da música popular brasileira: Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia.

Lembro que era um domingo, tão nublado e chuvoso quanto o de hoje, em que o Síndico saiu da vida e entrou para a história, como dizem por aí. Foram 56 anos frenéticos, de muitos sucessos, loucuras (quem acreditaria que o doidão Tim Maia viraria Tim Maia Racional, fazendo proselitismo e música de alto nível em nome do Universo em Desencanto?), shows que não aconteceram, outros que se tornaram antologia, histórias, aforismos e muitas canções imortalizadas pelo mestre.

O gordinho criado aqui na Tijuca, zona norte do Rio, com sua voz puro veludo, graves-médios-agudos para dar e vender, foi o terror dos técnicos, de muitos músicos também, por mais de 30 anos. Também pudera: para quem bebeu na fonte do soul e do rhythm n’ blues da Motown quando esteve nos EUA, movido pelo sonho de viver num país distante e diferente, para ele ninguém sabia gravar música direito no Brasil.

“Num país onde pobre vota na direita e traficante é viciado, não existe técnico de som.” Esse foi apenas um dos inúmeros aforismos que foram imortalizados por Tim Maia.

Como minha homenagem a ele, o blog traz o vídeo de uma apresentação dele ao vivo, interpretando a belíssima “Essa tal felicidade”, carro-chefe de um disco que gravou e vendeu incríveis 235 mil exemplares – um reflexo da enorme popularidade que o “Síndico” teve entre nós.

 

Discos eternos – Galos de Briga (1976)

joaoRIO DE JANEIRO – Existem artistas, músicas e discos que entram na vida da gente sem explicação e não saem mais – igualmente sem que se explique o motivo.

Trago de volta a seção Discos eternos para falar de um artista, de algumas músicas e de um disco que eu guardei para sempre na memória. Cortesia do mineiro de Ponte Nova João Bosco e seu Galos de Briga.

E como pode um disco editado em 1976, quando o blogueiro tinha apenas cinco anos de idade, chamar tanto a atenção de uma criança a ponto de, já adulto, perseguir um exemplar em Compact Disc nas lojas e adquiri-lo?

Existe o fascínio pela capa, é claro. O vermelho-sangue de fundo, um olho solitário, São Jorge impondo-se sobre um dragão e, em primeiro plano, uma pata de galo com esporas de rinha, remetendo ao título do LP.

Bosco, cuja carreira de cantor, compositor e violonista começou após um rápido flerte enquanto habitante de Ponte Nova com o iê-iê-iê da Jovem Guarda e em paralelo com o curso de Engenharia Civil que estudou em Ouro Preto, lançava em 76 seu terceiro trabalho, sem contar o disco “de bolso” que O Pasquim lançara quatro anos antes com “Agnus Sei”. Naquele mesmo ano, Elis Regina deu impulso à carreira de João ao cantar “Bala Com Bala” e o maravilhoso bolero “Dois pra lá, dois pra cá”, com letra de um tijucano de ideias brilhantes e afiadas: Aldir Blanc.

A parceria Bosco-Blanc foi uma das mais profícuas da música brasileira nos anos 70 e, embora segundo João, tenha se desgastado a ponto de provocar o fim da dupla enquanto compositores, tal como já acontecera por exemplo com Raul Seixas e Paulo Coelho, ficaram para a história as grandes canções que os dois compuseram.

Galos de Briga, disco produzido por Rildo Hora e que teve arranjos de Luizinho Eça (Radamés Gnattali trabalhou somente com a última música), além de uma retaguarda de primeiríssima qualidade com Toninho Horta (guitarras/violões), Luizão Maia (baixo), Paschoal Meirelles (bateria) e Dom Chacal (percussão), não foge à exceção dos trabalhos da dupla com composições que são polaroides do cotidiano do carioca nos anos 70. O disco começa com “Gol Anulado”, de citações futebolísticas (Quando você gritou ‘Mengo!’ no segundo gol do Zico / tirei sem pensar o cinto / e bati até cansar / três anos vivendo juntos / e eu sempre disse contente / minha preta é uma rainha / porque não teme o batente / se garante na cozinha / e ainda é Vasco doente), referências explícitas aos times de coração de João Bosco, rubro-negro de primeira hora e Aldir Blanc, vascaíno de boa cepa. Mas os dois extrapolam na comparação no verso final da canção (Eu aprendi que a alegria / de quem está apaixonado / é como a falsa euforia / de um gol anulado), fazendo a antítese de uma paixão com aquele gol que o artilheiro marca, mas não vale.

“Incompatibilidade de gênios”, clássico da dupla, volta com citações boleiras (Dotô / jogava o Flamengo e eu queria escutar / chegou / mudou de estação e começou a cantar) e uma narrativa muito bem-humorada das desventuras de um sujeito notadamente mal-casado, que deseja se livrar da mulher e tem seu desejo atendido quando ganha no jogo do bicho (E deu na cabeça / acertei no milhar / ai! quero me separar!).

A terceira faixa é o belíssimo bolero “O cavaleiro e os moinhos”, com direito à cama percussiva de Chico Batera e letra inspirada de Aldir Blanc que diz que ‘já não há mais moinhos como os de antigamente’. A carga latina se acentua em “Rumbando”, com inspiração nos clássicos caribenhos como os de Tito Puente e direito a uma interessante aliteração (O rumo da rumba / um bumbo, uma tumba / o rombo e o tombo – mas nasceu para bailar!), revelando a veia bem-humorada das letras de Aldir Blanc, que chega ao lirismo total em “Vida Noturna”, quinta e sofrida faixa do disco.

Em “O ronco da cuíca”, voltam as citações cotidianas numa música com empolgante introdução à la bateria de escola de samba, com Blanc desfilando um sem-fim de ironias, recados diretos à ditadura que reinava soberana no Brasil de 1976 e que a censura, talvez ocupada com outras coisas naqueles tempos, não teve competência ou capacidade de proibir. (A raiva dá pra parar pra interromper / a fome não dá pra interromper / a raiva e a fome é coisa dos ‘home’ / a fome tem que ter raiva pra interromper / a raiva é a fome de interromper / a fome e a raiva é coisa dos ‘home’ / é coisa dos ‘home’ / a raiva e a fome / mexeu com a cuíca / vai ter que roncar!)

Que tal substituir instrumento cuíca e colocar a palavra como sendo o trabalhador, o povo brasileiro?

O lado B (sim, discos nos anos 70 tinham um lado B) abre com o bolerão “Miss Suéter”, de participação especialíssima da Sapoti Ângela Maria e com letra que, lá em casa, era cantada a plenos pulmões pelo meu pai. Explico: quando ele e minha mãe se conheceram, lá pelos idos de 1962, ela tinha o cabelo levemente tingido de loiro. E como a letra diz que a personagem da canção tem “fascínio por falsas loiras”, apaixonadamente ele tocava a música, várias vezes. Nunca esqueci disso.

A música que mais gosto é a segunda do lado B, o bolero “Latin Lover”, com os versos que entraram para a história da parceria: Nos dissemos / que o começo é sempre sempre inesquecível / e no entanto meu amor / que coisa incrível / esqueci nosso começo inesquecível. O amante latino que morre sem revólver, sem ciúme, sem remédio e de tédio, dá vez ao fado “Galos de briga”, de lindíssimo arranjo de violões com os músicos Manoel Ferreira, Leonel Villar e Carlos Silva e Souza em perfeita sintonia com o baixo de Wagner Dias e os pratos e castanholas do percussionista Barão.

Cristas de incêndio crispadas
Cristas do fogo de espadas
Cristas de luz suicida
Lúcidas de sangue e futuro

Cristas crismadas em rubro
Não rubro rosa assustada
De rosa estufa, canteiro
Mas rubro vinho, maduro

Rubro capa, brandarilha
Rosa atirada ao toureiro

Não, o rubrancor da vergonha
Mas os rubros de ataduras
O rubro das brigas duras
Dos galos de fogo puro

Rubro gengivas de ódio
Antes das manchas no muro

Em “Feminismo no Estácio”, Bosco e Blanc deixam de lado uma certa apologia machista das duas primeiras faixas, de uma submissão feminina ante o macho-alfa para exaltar que a “nêga sem modos” da letra é “maior e vacinada”. E independente do marido, amante ou que quer que seja, para fazer o que lhe desse na telha.

Com participação de Toots Thielemans, o brilhante gaitista internacional, “Transversal do tempo”, a penúltima música, acabaria conhecida como o título de um dos mais belos espetáculos daqueles tempos – não com João Bosco, mas sim por Elis Regina, que como eu disse anteriormente, gravou – e gravaria até o fim da vida – músicas da dupla.

O disco encerra com a marcha-rancho “O rancho da goiabada” e não me perguntem como e por que era a minha música predileta (quando criança, é claro) das 12 de Galos de Briga, principalmente porque eu não gosto de goiabada cascão com muito queijo, nem de café com cigarro e de bife à cavalo. Sei lá… acho que é porque a música era gostosa de se ouvir e para mim, que era criança quando ouvia e adorava o disco, tema e letra eram irrelevantes.

Enfim, muito pelo gosto pessoal, menos por sua absoluta relevância na MPB, coloquei Galos de Briga como um disco fundamental e bom para ser apreciado. João Bosco e Aldir Blanc merecem, sim, um lugar de destaque na música nacional e todo o nosso respeito.

Ficha técnica de Galos de Briga
Selo: BMG/RCA-Victor
Gravado entre 1975 e 1976
Produzido por Rildo Hora
Tempo: 37’41″

Músicas (*):

1. Gol anulado
2. Incompatibilidade de gênios
3. O cavaleiro e os moinhos
4. Rumbando
5. Vida noturna
6. O ronco da cuíca
7. Miss Suéter (participação Ângela Maria)
8. Latin lover
9. Galos de briga
10. Feminismo no Estácio
11. Transversal do tempo
12. O rancho da goiabada

(*) Todas as músicas de João Bosco/Aldir Blanc

Discos eternos – Elis & Tom (1974)

elisRIO DE JANEIRO – Começava o ano de 1974 e André Midani, o dinâmico presidente da Philips do Brasil teve uma ideia simplesmente genial: comemorar os dez anos de carreira de Elis Regina, tida e havida desde aqueles tempos como a maior cantora do país, num disco que se antevia histórico. Principalmente por quem dividiria o álbum com a gaúcha: ninguém menos que Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim – o maestro soberano Tom Jobim, nome já consagradíssimo na música brasileira e internacional.

Aliás, é bom que se diga, Tom e Elis já tinham sido protagonistas de outro episódio – muito antes da gravação deste álbum. Elis, ainda em começo de carreira, fez testes para o papel do musical Pobre menina rica. Mas foi justamente vetada pelo próprio compositor para o papel, que ficou com Nara Leão.

“Ela ainda está cheirando a churrasco”, justificou Tom, vetando Elis.

Elis Regina passou por cima de tudo isso e foi convencida por seu empresário Roberto de Oliveira a abraçar o projeto de Midani. Até porque Tom Jobim era um dos poucos compositores a quem Elis tinha que tirar o chapéu. Sua admiração por ele era uma coisa rara em sua carreira.

E lá foi a cantora para Los Angeles, nos EUA, junto a Aloysio de Oliveira, que supervisionaria os trabalhos e os músicos – seu então marido Cesar Camargo Mariano, Luizão Maia, Hélio Delmiro, Paulo Braga e Chico Batera – que formariam por muito tempo o grupo de apoio de Elis, aos quais se juntaria Oscar Castro Neves, radicado por lá, para tocar violão em algumas faixas. A orquestra teria regência de Bill Hitchcock.

Não foi um álbum de fácil gestação. Elis era uma defensora ferrenha da modernidade do piano elétrico de Cesar Camargo Mariano e Tom Jobim, de uma escola mais erudita, queria que os arranjos fossem feitos pelo amigo de longa data Claus Ogerman. O maestro ficou de birra, Elis também e Aloysio de Oliveira, tentando conciliar, no meio – o que certamente rendeu ao veterano de guerras, egresso do Bando da Lua de Carmen Miranda nos tempos da Pequena Notável em Hollywood, mais fios de cabelos brancos. No fim das contas, Cesar Camargo Mariano foi o arranjador de 99% do disco, cabendo a Tom o arranjo de uma única faixa, “Modinha”.

Roberto Menescal, também compositor e na época diretor artístico da Philips, sabia de tudo o que se passava no processo de gravação do disco. De longe. Ele ligava todo dia para Aloysio de Oliveira para saber como ele se virava com Tom e Elis e ouvia como resposta. “É difícil, mas tudo bem.”

De Elis, Menesca ouviu o seguinte: “Está uma merda, não tem nada bom, o Tom é um babaca, um chato, reage contra os aparelhos eletrônicos, diz que vão desafinando e afinando não sei o quê, fazendo tipo, e a gravação está babaca, parecendo bossa nova.” Ele perguntou se não tinha saído nada e a cantora respondeu: “É, tem uma musiquinha boa”.

Aparadas as arestas, os trabalhos começaram e cada música de Elis & Tom saiu mais linda que a outra. O show começa com a versão – para mim – definitiva de “Águas de março”, em sensacional dueto – e vale ressaltar que a voz de Tom não era de um grande cantor. Ele compunha maravilhosamente bem, mas sua participação na faixa que abre o disco conferiu, além de tudo, credibilidade ao trabalho.

Daí em diante, Elis é a dona da bola. Suas interpretações de clássicos jobinianos como “Só tinha de ser com você” (com Aloysio de Oliveira) – no vídeo abaixo, “Corcovado”, “Retrato em branco e preto” (parceria com Chico Buarque e o poetinha Vinícius de Moraes), “Brigas, nunca mais”, “Fotografia”, “Chovendo na roseira” e “Inútil paisagem” são absolutamente definitivas.

Elis & Tom ganharia um especial na TV Bandeirantes, produzido em filme sob a supervisão do próprio Roberto de Oliveira e um vídeo histórico que celebrou o encontro destes dois grandes nomes da MPB, produzido para o Fantástico, da TV Globo, onde Elis e Tom cantam juntos “Águas de março” e o maestro toca flauta.

Em 2004, “Elis & Tom” foi remixado no Estúdios Trama pelo engenheiro Luis Paulo Serafim sob a supervisão de Cesar Camargo Mariano, a partir dos masters originais de 8 canais das sessões de gravação. O DVD Áudio, que roda em aparelhos de DVD vídeo, traz naturalmente uma mixagem em 5.1 e, como opção para aparelhos de CD, uma nova mixagem estereofônica, além de duas faixas bônus: “Fotografia”, em versão alternativa, e “Bonita”.

Ficha técnica de Elis & Tom
Selo: Philips/Polygram/Trama
Gravado em Los Angeles nos Estúdios MGM entre 22 de fevereiro e 9 de março de 1974
Produção de Aloysio de Oliveira (versão original) e de André Szajman, João Marcello Bôscoli e Cesar Camargo Mariano (na versão de 2004)
Tempo total: 37’46”

Músicas:

1. Águas de março (Tom Jobim)
2. Pois é (Tom Jobim/Chico Buarque)
3. Só tinha de ser com você (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
4. Modinha (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
5. Triste (Tom Jobim)
6. Corcovado (Tom Jobim)
7. O que tinha de ser (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
8. Retrato em branco e preto (Tom Jobim/Vinícius de Moraes/Chico Buarque)
9. Brigas, nunca mais (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
10. Por toda minha vida (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
11. Fotografia (Tom Jobim)
12. Soneto de separação (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
13. Chovendo na roseira (Tom Jobim)
14. Inútil paisagem (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)

Faixas bônus na versão de 2004:

15. Fotografia [versão alternativa] (Tom Jobim)
16. Bonita (Tom Jobim)

“Eta forró da moléstia…”

RIO DE JANEIRO – Essa é daquelas músicas que é impossível ficar parado. A saudosa Clara Nunes, cuja carreira foi praticamente marcada pelas interpretações de sambas, deixou sua marca num forrozão delicioso do Sivuca. “Feira de Mangaio” é um clássico do ritmo nordestino e muito boa de se ouvir e curtir. Por isso merece estar aqui como o clip da semana

Lua viajante

RIO DE JANEIRO – Feriado que celebra o Dia da Consciência Negra, e os shoppings pondo gente pelo ladrão. Foi assim que passei parte da minha terça-feira, com os cinemas entulhados de fãs dos vampiros da “saga” Crepúsculo e outros ávidos por ver até onde vai James Bond no novo filme da série 007. Optei por um caminho um pouco mais simples: assistir na telona a história de Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha, dirigida por Breno Silveira, o mesmo que já contara há alguns anos a vida dos Dois Filhos de Francisco.

Valeu a pena esperar quase um mês inteiro para ver como se desenhou a trajetória do Rei do Baião desde Exu, no sertão de Pernambuco, até a difícil relação com Gonzaguinha, fruto de um relacionamento de Gonzagão com uma dançarina do famoso Dancing Avenida, lá pelos anos 40.

Enquanto o velho “Lua” desfilava Brasil afora com seus xotes e baiões que conquistaram o povo, Gonzaguinha sofria com a ausência do pai e da mãe, falecida prematuramente vítima da tuberculose. Talvez aí esteja o cerne do porquê de tantas canções do filho de Gonzagão serem por vezes difíceis, qual coração dilacerado, qual carne cortada a faca com sua lâmina fria. Não foi à toa que, quando iniciou carreira musical e num estilo diametralmente oposto ao pai, já que era um ativo militante de esquerda, Gonzaguinha tinha o apelido nada singelo de “cantor rancor”.

Buscando o passado a limpo e sua própria história de vida, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior fez o que tinha de ser feito. Deixou para trás tudo o que passou, a ausência, a saudade e se reaproximou do velho Gonzagão, surpreendendo o país inteiro nos anos 80 com uma turnê que foi um sucesso nacional.

A relação entre pai e filho, tão tempestuosa, tornou-se intensa e de um imenso respeito. De ambas as partes. Gonzagão se foi em 1989. Gonzaguinha, menos de dois anos depois, num acidente de carro. Como dito várias vezes, saíram da vida e entraram para a história de uma música que ainda tinha muito a dizer – totalmente o inverso dos tchus tchas que infestam as rádios.