Sua Majestade, Jair Rodrigues

Aperte o Play! Jair RodriguesRIO DE JANEIRO – Jair Rodrigues de Oliveira era daquelas pessoas que a gente achava que iria ficar por muito tempo neste plano, nesta vida. Pelo menos era a minha impressão, pois sempre percebi nele uma alegria infinita de viver. O “Cachorrão”, como era conhecido, transpirava simpatia e sorrisos, com quem quer que fosse.

Mas hoje, qual não é a nossa surpresa ao saber que o Jair Rodrigues se foi.

Setenta e cinco anos de idade, mais de cinquenta de carreira. Dois filhos – Luciana Mello e Jairzinho – que seguiram os passos do pai, orgulhosos do ídolo e referência. Um artista avant la lettre: foi o nosso primeiro rapper – alguém tem dúvidas disso? – com o clássico “Deixa isso pra lá”, aquele das mãozinhas pra cima e pra baixo. Ele foi também um grande intérprete de sambas, que na verdade pontuaram mais a sua carreira nos palcos e nos discos, mas como bom sujeito nascido em Igarapava, no interior de São Paulo, foi amamentado pelas modas de viola – que cantava com a alma, com o coração.

Por ser um intérprete versátil, carismático e sobretudo divertido, Jair foi requisitado para participar do histórico programa O Fino da Bossa com Elis Regina e os não menos históricos discos Dois na Bossa, que o alavancaram para o patamar das grandes estrelas da MPB. Embora Ronaldo Bôscoli tivesse sérias restrições ao jeitão de Jair, que era um tanto quanto espalhafatoso, a dupla fazia sucesso – até que as circunstâncias os separaram.

Jair foi também figura de proa na Era de Ouro dos Festivais de MPB. No de 1966, imortalizou a “Disparada” de Théo de Barros e Geraldo Vandré, tornando-a um clássico, talvez a maior música sertaneja da história. Também foi protagonista involuntário da confusão envolvendo a canção “O combatente” (cuja torcida organizada vaiou a desclassificação da música, provocando uma quizumba no Teatro Paramount), no ano seguinte e defendeu “A família”, música escrita por Ary Toledo e Chico Anysio, junto aos Golden Boys em 1968 – ano em que também participou de forma brilhante na interpretação de “Canto chorado” (Billy Blanco), com os Originais do Samba.

Ao todo, foram 43 discos lançados como intérprete, incluindo a série Dois na Bossa. Em muitos deles, Jair imortalizou com sua voz sambas lendários como “Tristeza”, “Foi um rio que passou em minha vida”, “Festa para um rei negro”, “Orgulho de um sambista”, “Diz que eu fui por aí”, “Saudosa maloca”, “Sou da madrugada”, “As quatro estações do ano”, “Lendas do Abaeté” e por aí afora.

Mas as modas de viola, vez ou outra, eram lembradas e igualmente imortalizadas na sua voz. Quem há de esquecer d’ele cantando “A majestade, o sabiá” e “Menino da porteira”? Difícil… muito difícil.

A voz de Jair Rodrigues se cala, infelizmente, neste 8 de maio de 2014. A música brasileira fica, a cada dia, mais triste e mais pobre.

Ficarão para sempre as canções e a saudade.

Dê um beijo na Elis e um abraço no Vina, “Cachorrão”. E avise para eles que a coisa tá cada vez mais preta. Mas a gente vai levando…

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“Ninguém ouviu… um soluçar de dor… num canto do Brasil…”

RIO DE JANEIRO – Não tenho o menor pudor em confessar que estou dominado pelo que se chama de TPC. O leitor ou a leitora que está aqui no blog há de se perguntar que diabos será essa TPC.

É a Tensão Pré-Carnaval, ora bolas. Como bom folião que sou, aguardo ansiosamente pelo momento de cair no samba, nas marchinhas e nos blocos – com moderação, é claro. Nada é bom quando feito com excesso.

Eu poderia logicamente fazer o que fiz noutras ocasiões: encher esse post com vídeos de desfiles de escola de samba que apresentaram sambas, no meu ver, antológicos ou significativos. Mas dessa vez, não.

Vou homenagear uma personagem que, se viva estivesse, com certeza seria ovacionada em sua passagem pela avenida: Clara Nunes.

A Guerreira, nascida em 1942 na cidade mineira de Cedro, hoje Caetanópolis, consolidou-se nos anos 70 como uma das maiores cantoras do país e uma vendedora de discos de mão cheia. Clara quebrou o tabu que mulher não vendia disco e se tornou uma das artistas mais queridas pelo povão. Abraçou a Portela, a cultura afro e foi abraçada pela escola, pelos compositores e sambistas, que a adoravam.

Incrivelmente, mesmo cantando em português, Clara Nunes fazia muito sucesso no exterior. Ela era idolatrada no Japão e em seus shows por lá, o público levava instrumentos de percussão para acompanhar o Conjunto Nosso Samba e demais músicos brasileiros. Uma loucura, como atestou o surdista Gordinho, um mestre na sua especialidade.

“Eles ficam na plateia tocando baixinho. Mas não são bobos, não. Estudaram, tocaram bem. Tinha um pandeirista e eu até brinquei com ele dizendo que não era japonês e sim brasileiro. Ele tocava bem o pandeiro e até rodava no dedo. Esperto, o cara”, conta. “No último espetáculo que fizemos no Japão, a gente pediu para ela (Clara) os deixar subirem no palco, pois ia ser uma loucura. Ela concordou, mas pediu que fosse ao final do show. Um grupo de mais de 15 pessoas subiu. Foi uma maluquice”, diverte-se Gordinho.

A prova do sucesso de Clara Nunes no Oriente está aqui no vídeo abaixo: uma apresentação da cantora para o canal NHK, em estúdio, onde ela e seus músicos arrebentam em “Canto das Três Raças” (Mauro Duarte/Paulo Cesar Pinheiro), um dos maiores sucessos da Sabiá. Reparem ao fim da apresentação que a cantora é entrevistada e responde em português com a maior naturalidade. No comecinho dos anos 80, os japoneses – esses danadinhos – já tinham inventado o ponto eletrônico, onde alguém traduzia as perguntas para Clara e ela respondia tudo direitinho.

“Canto das Três Raças” é o clip da semana.

Discos eternos – Edison Machado é Samba Novo (1963)

CapaSambaNovoRIO DE JANEIRO – Nascido no Engenho Novo, zona norte do Rio de Janeiro, Edison Machado é considerado entre seus discípulos e também por dezenas de músicos como um dos maiores bateristas já surgidos no país. Em sua curta vida de 56 anos, iniciada em 1934 e ceifada abruptamente em 1990, ele deixou um legado inesquecível para o samba e os ritmos dele surgidos, como o samba-jazz e a própria Bossa Nova, com seu inconfundível suingue e o estilo de “ataque” do instrumento que tanto dominava.

Edison tomou intimidade rápida com a bateria e também com a vida noturna. Criado no ambiente da gafieira, aos 23 anos gravou o disco A turma da gafieira. Ele não tardou a ingressar no círculo musical da Bossa Nova, inovando no estilo de tocar samba, usando os pratos e o pé direito de uma forma até então jamais vista, tornando-se uma lenda do Beco das Garrafas, formado por estabelecimentos como o Ma Griffe, Little Club, Baccara e Bottles Bar. O contrabaixista Tião Neto, que mais tarde integraria o grupo de Sérgio Mendes (com quem Edison gravaria o álbum E você ainda não ouviu nada, de 1962), disse certa vez o seguinte:

“Edison foi o maior baterista de samba de todos os tempos. O tempo dele no samba no prato e no pé direito é irreprodutível. Ele tinha um suingue fantástico, e quem quisesse que fosse atrás. Foi, sem dúvida, uma figura de proa na MPB. A música brasileira atual, principalmente o samba, deve muito a Edison.”

Edison Maluco era um baterista tão à frente do seu tempo, que em 1963 tornou-se o astro principal de um álbum que se tornou uma lenda e também um dos mais queridos por quem gosta de boa música brasileira: Edison Machado é Samba Novo.

Cabe observar que ele não era o único “cobra” que concebeu o disco. Músicos consagrados – ou que se consagrariam – como o próprio Tião Neto, o lendário J.T. Meirelles (do Meirelles e os Copa 5), o jovem Paulo Moura e o excepcional trombonista Raul de Souza – fizeram parte das sessões de gravação.

Sabe-se que é raro um álbum instrumental produzido e gravado no Brasil ter tanto bom gosto, do começo ao fim. Além dos ótimos músicos, Edison Machado se cercou de composições de alto nível e da chamada MPM (Música Popular Moderna, tida como um filhote da Bossa Nova). O disco abre com “Nanã”, em emocionante versão pontuada pelo sax tenor de J.T. Meirelles. A composição de Moacir Santos, “o maestro que não é um só, mas é tantos” e Clóvis Mello, só teria sua letra finalmente conhecida quando gravada por Wilson Simonal em A Nova Dimensão do Samba.

“Só por amor”, de Baden e Vinícius, segundo tema do disco, é executada em delicioso ritmo, daquele tipo de samba gostoso de se dançar juntinho. E assim as músicas vão se alternando entre ritmos vertiginosos, como se ouve em “Aboio” e “Quintessência”, ambas de J.T. Meirelles, além da excepcional e suingada “Coisa nº 1”, outra obra-prima da parceria Moacir Santos-Clóvis Mello, e outras pontuadas pela “cama” do naipe de metais, tais como “Tristeza vai embora”, de Baden e Mário Telles; “Miragem” e “Solo”, de J.T. Meirelles; e a ótima versão para “Menino Travesso”, de Moacir Santos e Vinícius de Moraes.

Edison Machado foi um músico tão fundamental para a MPB que seu nome apareceu depois deste disco na ficha técnica de trabalhos de outros artistas de renome, como Nara Leão (ele tocou no show Opinião), Elis Regina, Johnny Alf, João Donato, Wanda Sá, Luiz Carlos Vinhas, Edu Lobo, Maria Bethânia, Dick Farney, Victor Assis Brasil, Rosinha de Valença e Agostinho dos Santos.

Ele também formou com Dom Salvador (piano) e Sérgio Barroso (baixo) o Rio 65 Trio, projeto de curta duração e com apenas um álbum: A hora e a vez da MPM. MPM era sigla para Música Popular Moderna, uma espécie de estuário onde desaguariam os estilos derivados da Bossa Nova, que já tinha conhecido o seu fim.

Entre 1970 e 1971, montou o Quarteto Edison Machado e pelo desconhecido selo Stylo, lançou dois álbuns intitulados Obras. Seus músicos acompanhantes eram Ion Muniz (sax), Edson Maciel (trombone), Haroldo Mauro Jr. (piano) e Ricardo Pereira dos Santos (baixo). Cinco anos mais tarde, fixou residência nos Estados Unidos, tocando também com Chet Baker e Ron Carter até voltar em 1990 para uma curta temporada na Boate People, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro.

Porém, em 15 de setembro daquele ano, três meses depois dos shows cariocas, Edison Machado faleceu vítima de um infarto fulminante em Niterói. Foi-se o músico e o ser humano, ficaram na memória as incríveis performances pra sempre lembradas por quem gosta de música brasileira de verdade.

Ficha técnica de Edison Machado é Samba Novo
Selo: Columbia/CBS Discos/Sony Music
Gravado em 1963
Tempo: 27″00

Músicas:

1. Nanã [Coisa nº5] (Moacir Santos/Clóvis Mello)
2. Só por amor (Baden Powell/Vinícius de Moraes)
3. Aboio (J.T. Meirelles)
4. Tristeza vai embora (Baden Powell/Mário Telles)
5. Miragem (J.T. Meirelles)
6. Quintessência (J.T. Meirelles)
7. Se você disser que sim (Moacir Santos/Vinícius de Moraes)
8. Coisa nº 1 (Moacir Santos/Clóvis Mello)
9. Solo (J.T. Meirelles)
10. Você (Rildo Hora/Clóvis Mello)
11. Menino travesso (Moacir Santos/Vinícius de Moraes)