Discos eternos – Led Zeppelin IV (1971)

Capa-Led-Zeppelin-IV

RIO DE JANEIRO – Após algumas semanas ausentes, os “Discos Eternos” do blog voltam com mais um álbum fundamental da história da música: Led Zeppelin IV, também conhecido informalmente por Zoso, Four Symbols, Disco Sem Nome ou o Disco do Fazendeiro – até porque não havia explicitamente nada que remetesse ao Led na capa ou na contracapa – exceto no som forte, potente, poderoso, marca registrada da banda.

O disco é um divisor de águas entre o hard rock e o heavy metal. Na verdade, é uma fusão dos dois estilos, mesclando também folk music, uma pitadinha de pop, blues de raiz e psicodelia, num trabalho homogêneo como poucos gravados nos idos de 1971.

As duas primeiras músicas são grandes clássicos do Zep até hoje, com os vigorosos riffs de guitarra de Jimmy Page, o baixo marcadinho de John Paul Jones, os falsetes de Robert Plant e as pancadas de Bonzo na bateria. “Black Dog” e “Rock And Roll” são feitas para se ouvir no volume máximo – um contraponto tremendo com as músicas mais, digamos, cabeça, como “Going To California”, “Misty Mountain Hop” e especialmente “Stairway To Heaven”, a música que tanto Page quanto Plant renegaram nos anos que se seguiram ao fim do grupo – inclusive negando-se a tocá-la no último festival Hollywood Rock realizado em 1996, quando os dois vieram ao país na esteira do lançamento do disco Un-Led-Ed gravado pelos dois com farta percussão indiana.

O disco ainda tem excelentes músicas, feito “The Battle of Evermore”, relembrada no filme Singles (Vida de solteiro) pelo grupo Lovemongers, formado pelas integrantes do Heart, Ann e Nancy Wilson, fãs devotadas do Zeppelin. E também “When The Levee Breaks”, graças à intensa marcação de percussão de John Bonham, as linhas de guitarra de Jimmy Page e o vocal gritado de Robert Plant.

O Led estava pronto para deixar os estúdios e se tornar uma grande banda de “arena”, enchendo teatros e estádios grandiosos, arrastando multidões de fãs no mundo inteiro e impondo sua massa sonora de esporro nos palcos mundo afora. O rock and roll ainda não tinha sido tomado de assalto pela fúria do punk e o início dos anos 70 ainda vivia o fim do movimento hippie e os protestos dos pacifistas pelo fim da guerra do Vietnã. E o Zeppelin ainda voaria alto por muito tempo…

Ficha técnica de Led Zeppelin IV 
Selo: Atlantic/Warner Music
Gravado entre dezembro de 1970 e março de 1971, em Londres, Califórnia, Hampshire e no Rolling Stones Mobile Studio
Produzido por Jimmy Page
Tempo total: 42’38″

Músicas:

1. Black Dog (Jones/Page/Plant)
2. Rock And Roll (Bonham/Jones/Page/Plant)
3. The Battle of Evermore (Page/Plant)
4. Stairway to Heaven (Page/Plant)
5. Misty Mountain Hop (Jones/Page/Plant)
6. Four Sticks (Page/Plant)
7. Going to California (Page/Plant)
8. When the Levee Breaks (Memphis Minnie/Bonham/Jones/Page/Plant)

Anúncios

Discos eternos – New Wave Mamão Com Açúcar (1985)

New Wave Mamão com Açucar (1985)RIO DE JANEIRO – Longe vão os tempos de quem, como eu, já passou dos 40 e nos anos oitenta pôde aproveitar bem a juventude. No início daquela década, o rock explodia no Brasil em bom português e, claro, com os grupos internacionais graças ao Rock in Rio. Mas uma outra vertente fazia barulho e ganhava as pistas, ou melhor, as danceterias – que roubavam a vez das decadentes discothèques.

Era o movimento New Wave, a nova onda da música, uma mistureba de glam, punk, pop, eletro e o que mais desse na telha. Músicas dançantes, pra cima, alegres. E foi com esse conceito que nasceu a coletânea New Wave Mamão Com Açúcar, alusiva à danceteria carioca que por um bom tempo foi concorrente de casas como a Help (quando ainda não tinha se transformado em ponto de encontro de mulheres de vida fácil), a Babilônia, a Zoom, a Mamute, entre outras, frequentadas pela garotadinha com cabelo cheio de glitter, roupas da Company, Cantão ou de qualquer outra grife da época, preferencialmente em tons cítricos, tênis quadriculados ou All-Star e relógios Champion, daqueles de pulseiras multicoloridas.

A seleção de repertório foi caprichada e com a mixagem final, bastava deixar o disco rolar que qualquer festinha estava garantida na animação. Lá em Ramos, onde passei a adolescência, o disco rolava direto. Era impressionante. Bastava tocar a primeira faixa e todo mundo começava a pulação.

Também pudera. O disco abre com “Middle Of The Road”, um dos clássicos dos Pretenders, cheio de solos de guitarras e gaitas da banda de Chrissie Hynde, emendando com a enérgica e até hoje sensacional “Dancin’ With Myself”, com Billy Idol e seu grupo Generation X, apelidado de Gen X na capa.

Não para por aí… a loucura continuava com “Private Idaho”, dos alucinados B-52’s, desaguando em “Let’s Go Crazy”, do baixinho invocado Prince e seu grupo The Revolution e nos criativos rapazes do Devo, que mandavam bem em “Beautiful World”.

O lado B abria com dois petardos. “Wake Me Up Before You Go-Go”, aquela do clipe tremendamente gay do Wham!, grupo em que George Michael catapultou-se para o estrelato. Não menos seguidora dessa vertente, “Just Can’t Get Enough”, dos caras do Depeche Mode, era outro hit arrasa-quarteirão, graças aos teclados de Vince Clarke – que depois iria para o Erasure.

Com riffs de guitarras, Huey Lewis & The News estavam representados com “I Want a New Drug”, seguida pela ótima “Dance Hall Days”, do Wang Chung. Como nem tudo é perfeito, a pior faixa era a última – “Native Love (Step by Step)”, do Divine, grupo do produtor Bobby O onde o vocal principal era de um travesti.

Aliás, não só a última música não é das melhores, como a capa do disco (arte de Jejo Cornelsen e Hildebrando de Castro) é uma mensagem subliminar de dois mamões sendo lambidos como se fossem seios. Não pegou bem.

Faltou muita coisa boa nessa coletânea, provavelmente pela questão da cessão dos fonogramas e principalmente pela falta de espaço de um disco de vinil, no qual couberam cinco músicas em cada lado.

Fica a pergunta: se New Wave Mamão Com Açúcar pudesse ganhar uma reedição em CD, quase 30 anos depois, que grupos e/ou artistas vocês colocariam? E com que músicas?

Cartas para a redação.

Ficha Técnica de New Wave Mamão Com Açúcar
Selo: Som Livre
Seleção musical: DJ Cláudio
Supervisão: Sérgio Mota
Lançado em 1985

Músicas:

1. Middle Of The Road (Pretenders)
2. Dancin’ With Myself (Billy Idol and Generation X)
3. Private Idaho (B-52’s)
4. Let’s Go Crazy (Prince & The Revolution)
5. Beautiful World (Devo)
6. Wake Me Up Before You Go-Go (Wham!)
7. Just Can’t Get Enough (Depeche Mode)
8. I Want a New Drug (Huey Lewis & The News)
9. Dance Hall Days (Wang Chung)
10. Native Love [Step by Step] (Divine)

Discos eternos – Tim Maia (1970)

Capa Tim Maia 1970

RIO DE JANEIRO – Enquanto nos anos 60, a Jovem Guarda dava seus últimos suspiros e Roberto Carlos partia célere para assumir o posto de artista mais popular do país, um mulato gordinho, que passou parte da adolescência nos EUA tentava a sorte na música cantando em inglês. E principalmente, investindo num gênero que ainda não tinha espaço por aqui: a Soul Music.

O mulato gordinho em questão era Tim Maia, nascido e criado na Tijuca, amigo de Erasmo Carlos, com quem trocava cartas entusiasmadas quando esteve fora do país. Um assinava “Tim Jobim” e o outro devolvia como “Erasmo Gilberto”. Mas enquanto Erasmo virava o Tremendão e amigo-de-fé-irmão-camarada de Roberto, Tim passava o pão que o diabo amassou. Foi preso, deportado e passou fome e frio em São Paulo até conseguir a indicação de Roberto para gravar na CBS.

Sob a produção do exigente Evandro Ribeiro, Tim não conseguiu fazer suas músicas saírem como queria. Brigou com geral na gravadora e virou persona non grata. Na RGE, para onde iria por intermédio de Erasmo, tentar fazer um compacto e depois o primeiro – e sonhado – disco, aconteceu a mesma coisa e Tim, sabendo que sua hora tinha chegado na música brasileira, ficava para trás.

Foi aí que a sorte lhe sorriu: uma fita levada por Jairo Pires, que o conheceu na CBS como técnico de gravação e que estreava na Philips como produtor, estourou como uma bomba numa das reuniões mensais. Nela estava gravada a sensacional “Primavera”, de Sílvio Rochael e Cassiano. Naqueles idos anos, nada parecido se ouvira por aqui.

Quando o inverno chegar… eu quero estar junto a ti… pode o outono voltar… eu quero estar junto a ti… porque… é primavera… te amo… é primavera… te amo… meu amor…

Nelson Motta, que ouviu a fita entusiasmado, sentiu “cheiro de gol” e pediu que Tim aparecesse na Philips. Ele foi, e mostrou outras músicas. Uma delas, a bossa-nova “These Are The Songs”, saiu em compacto com Elis Regina e Tim, aprovadíssimo pelos Mutantes (que os conheciam do programa Quadrado & Redondo, apresentado por Débora Duarte e Sérgio Galvão na Bandeirantes) e também por Erasmo Carlos, que saía da RGE nessa mesma época e mudava para a gravadora dirigida por André Midani, foi contratado para fazer seu primeiro disco.

Movido a combustíveis alternativos, Tim varou noites no Estúdio Scatena em São Paulo, junto com Jairo Pires e Arnaldo Saccomani, para conseguir que os músicos fizessem o som que queria, e que os maestros Waltel Branco, Waldyr Arouca Barros e Cláudio Roditi transcrevessem os arranjos que o cantor lhes passavam “de boca”.

Com o auxílio luxuoso do conjunto vocal Os Diagonais (que tinha Cassiano, guitarrista-base das gravações, além de Camarão, Marcos e Fernando) e de músicos como o lendário baixista Capacete, Paulinho Batera, Zé Carlos, Guilherme, Garoto e Carlinhos, Tim foi o responsável por um dos maiores petardos musicais do país nos anos 70.

O disco abre com “Coroné Antônio Bento”, uma brincadeira de Camarão, um dos vocalistas dos Diagonais, que caiu no gosto de Tim imediatamente. Nascia uma fórmula que o cantor exploraria nos seus primeiros trabalhos: o baião-soul.

“Cristina”, escrita em parceria com Carlos Imperial, teria sido uma homenagem a uma bela morena chamada… Cristina e que, segundo a lenda, tinha um bumbum descomunal, que enlouquecia o cantor. ‘Vou ver Cristina…’, cantarolava com cara safada, seguindo o rebolado de sua musa. Mas há quem diga, como o biógrafo de Imperial, Denílson Monteiro, que ‘Vou ver Cristina…’ era uma senha para sair do apartamento do compositor e ‘apertar um baseado’. Imperial era avesso a tóxicos e Tim Maia não dispensava um bauretezinho.

O funk “Jurema”, a terceira faixa, é uma menção à famosa entidade Cabocla Jurema, saudada como Joo-rey-mah Queen of The Jungle. Curtinha, mas muito bacana – tanto quanto “Padre Cícero”, uma das melhores do disco e cuja métrica Tim aproveitou para transformar a canção em “João Coragem”, tema do personagem homônimo da novela Irmãos Coragem, grande sucesso da televisão brasileira naquele ano.

Tim ainda gravou uma bonita canção de Natal – “Risos” (de Fábio e Paulo Imperial), “Eu Amo Você”, outra lindíssima composição de Cassiano e Sílvio Rochael, além da belíssima balada “Azul da Cor do Mar”, que teve como inspiração as inúmeras desilusões que o cantor, auto-intitulado preto, gordo e cafajeste, sofria com as meninas que iam para o apartamento onde morava, na Rua Real Grandeza, 171, em Botafogo, para ficar com o cantor Fábio e seu empresário, Glauco.

Com raiva e sentimento, Tim ligava o gravador e, acompanhado do violão, mandava ver.

Ah… se o mundo inteiro me pudesse ouvir… tenho tanto pra contar… dizer que aprendi… que na vida a gente tem que entender… que um nasce pra sofrer… enquanto o outro ri… mas quem sofre sempre tem que procurar… pelo menos vir achar… razão para viver… ter na vida um motivo pra sonhar… ter um sonho todo azul… azul da cor do mar…

Nascia assim o mestre da “cornitude” e Tim Maia começava, com este primeiro e fantástico disco, sua trajetória polêmica e ao mesmo tempo brilhante dentro do cenário musical brasileiro.

Ficha Técnica de Tim Maia
Selo: Polydor/Universal Music
Produção: Jairo Pires e Arnaldo Saccomani
Gravado nos Estúdios Scatena, em São Paulo, e no Cineac-Trianon, no Rio de Janeiro, em 1970
Tempo total de produção: 40’55″

Músicas:

1. Coroné Antônio Bento (Luiz Wanderley/João do Vale)
2. Cristina (Tim Maia/Carlos Imperial)
3. Jurema (Tim Maia)
4. Padre Cícero (Cassiano/Tim Maia)
5. Flamengo (Tim Maia)
6. Você Fingiu (Cassiano)
7. Eu Amo Você (Sílvio Rochael/Cassiano)
8. Primavera (Vai Chuva) (Sílvio Rochael/Cassiano)
9. Risos (Fábio/Paulo Imperial)
10. Azul da Cor do Mar (Tim Maia)
11. Cristina nº 2 (Carlos Imperial/Tim Maia)
12. Tributo a Booker Pittman (Cláudio Roditi)

Discos eternos – Layla and other assorted love songs (1970)

layla-and-other-assorted-love-songs

RIO DE JANEIRO – Este é um disco que permanece eterno na história do rock and roll. E pelo visto, continuará sendo por todo o sempre. Não é para menos: foi uma obra concebida com grande dose de paixão – a mola-mestra do blues, desde os primórdios.

A paixão (fulminante, aliás) em questão era de Eric Clapton, por ninguém menos que Patti Boyd, a esposa do parceiro em “Badge” e amigo desde os tempos dos Beatles, George Harrison. E o guitarrista britânico, que vinha do tumultuado fim do Cream e de excursões com Delaney, Bonnie & Friends, buscou neste álbum canalizar a frustração de um amor não-correspondido .

Durante sua passagem como convidado de Delaney e Bonnie Bramlett, Clapton conheceu os músicos Carl Radle (baixo), Bobby Whitlock (teclados e piano) e Jim Gordon (bateria), convidando-os imediatamente a se juntarem a ele para a formação do Derek And The Dominos. As jam sessions nos lendários estúdios Criteria, em Miami, corriam às mil maravilhas, as composições brotavam e tudo fazia crer que surgia no horizonte um belo disco.

Foi aí que Clapton teve uma sacada genial: chamou Duane Allman, dos Allman Brothers, para encorpar o trabalho e dar às músicas a pegada que ele queria, especialmente em alguns solos. E, sem dúvida, deu resultado: afinal, basta lembrar do riff incial de “Layla”, a canção-homenagem de Clapton e Jim Gordon à Patti Boyd, que é uma belíssima resposta por si só.

Mas o disco, com 14 faixas no total, não se resume apenas e tão-somente à 13ª música, que é “Layla”. Há grandes clássicos do blues, feito “Key To The Highway”, de Charlie Segar e Big Bill Broonzy, além de “Have You Ever Loved A Woman”, esta de Billy Myers, e “It’s Too Late”, composição de Chuck Willis.

Entre novidades de Clapton, como a chorosa “Bell Bottom Blues”, as belíssimas “Anyday” e “Keep On Growing”, o talento dele e de Duane Allman fica evidenciado nos blues de levada mais pesada, como “Nobody Knows You When You’re Down And Out”, “Tell The Truth” e “Why Does Love Got To Be So Sad?”. Mas não é só isso: eles fazem uma excepcional versão de “Little Wing”, uma homenagem e tanto a Jimi Hendrix, que morreria oito dias depois do término das sessões de gravação de Layla And Other Assorted Love Songs.

Ao mesmo tempo em que não conseguia vivenciar aquela que era sua grande paixão (pelo menos naquela época, pois depois ele se casaria com Patti Boyd), Clapton enfrentava pela primeira vez grandes problemas com drogas, mergulhando pesado no vício da heroína. Para piorar, no início da turnê que se seguiu à gravação do disco, Duane Allman morreu num acidente de motocicleta e a carreira de EC entrou em parafuso.

Apesar de tantos obstáculos, o álbum é uma pérola do blues e do rock and roll contemporâneo. Um trabalho tão bom que até o mal-humorado Tom Dowd, que co-produziu o álbum com os Dominos, qualificou Layla… como o melhor disco que fizera desde The Genius of Ray Charles, gravado 10 anos antes.

A maravilhosa capa de Layla… é uma pintura de Emile Theodore Frandsen de Schönberg, intitulada “La Fille de Bouquet” e sem dúvida é uma das mais marcantes de todos os tempos.

Em 2010, o álbum ganhou uma roupagem luxuosa, condizente com o 40º aniversário de lançamento desta obra-prima, com músicas gravadas pelos Dominos como “Roll It Over”, que saíram apenas em single, e com a lendária apresentação do grupo ao vivo no programa de Johnny Cash em novembro de 1970, com direito à participação especial do próprio Cash e da lenda Carl Perkins em “Matchbox Blues”, de autoria deste último.

Ficha Técnica de Layla And Other Assorted Love Songs
Selo: ATCO/Universal Music
Produzido por Tom Dowd e Derek And The Dominos
Gravado nos estúdios Criteria, em Miami (EUA), entre agosto e setembro de 1970
Tempo total: 76’43″

Músicas:

1. I Looked Away (Eric Clapton/Bobby Whitlock)
2. Bell Bottom Blues (Eric Clapton)
3. Keep On Growing (Eric Clapton/Bobby Whitlock)
4. Nobody Knows You When You’re Down And Out (Eric Clapton/Bobby Whitlock0
5. I Am Yours (Eric Clapton/Nizami)
6. Anyday (Eric Clapton/Bobby Whitlock)
7. Key To The Highway (Charlie Segar/Big Bill Broonzy)
8. Tell The Truth (Eric Clapton/Bobby Whitlock)
9. Why Does Love Got To Be So Sad? (Eric Clapton/Bobby Whitlock)
10. Have You Ever Loved A Woman (Billy Myers)
11. Little Wing (Jimi Hendrix)
12. It’s Too Late (Chuck Willis)
13. Layla (Eric Clapton/Jim Gordon)
14. Thorn Tree In The Garden (Bobby Whitlock)

Discos eternos – Os afro-sambas (1966)

folder

RIO DE JANEIRO – Quando Vinícius de Moraes se autointitulava “o branco mais negro do Brasil”, era bem difícil duvidar das palavras do poetinha.

Mas a negritude do Vina só viria à tona quando foi presenteado por Carlos Coqueijo, compositor bissexto e juiz do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia com um disco contendo sambas de roda, pontos de candomblé e toques de berimbau que o encantaram de modo que ele não só passou a se intitular enfaticamente um filho de Oxalá e na linha direta de Xangô como, anos depois, se casaria com a baiana Gessy Gesse e fixaria residência naquele estado.

Voltando algum tempo antes de 1965, Vinícius, desejoso de transformar aquela inspiração toda em música, chamou Baden Powell para compor com ele. Os dois se trancaram no apartamento do poetinha no Parque Guinle, em Laranjeiras e, após beberem caixas e mais caixas de uísque Haig, saíram de lá com 25 canções prontas – oito delas dariam forma ao que seria o disco Os afro-sambas, gravado em 1966 e distribuído pelo selo Forma, de Roberto Quartin.

A produção é um espetáculo. As canções não se limitam ao básico de voz e violão em matéria de arranjos, trazendo instrumentos percussivos como atabaques, bongôs, afoxés, agogôs e pandeiros. O maestro Guerra Peixe foi o responsável pelos arranjos e pela regência nas gravações, que contaram ainda com a luxuosa participação do grupo vocal feminino Quarteto em Cy – que, por sinal, continua existindo até hoje.

Os afro-sambas produziu um clássico instantâneo da MPB, “Canto de Ossanha”, de múltiplas regravações ao longo de quase 50 anos. Havia também os cantos de Xangô, Iemanjá e do Caboclo da Pedra-Preta, pontuando o disco, que tem também as maravilhosas “Tristeza e solidão” e “Tempo de amor”, esta última uma das mais bonitas canções da parceria Vinícius-Baden, que ainda nos ofertaria canções como “Samba em Prelúdio”, “Berimbau” e tantas outras que fizeram a delícia dos ouvintes e história na música popular brasileira.

Ficha técnica de Os afro-sambas
Selo: Forma/Companhia Brasileira de Discos
Gravado em 1966
Produzido por Roberto Quartin e Wadi Gebara
Tempo: 32’42”

Músicas:

1. Canto de Ossanha
2. Canto de Xangô
3. Bocoché
4. Canto de Iemanjá
5. Tempo de amor
6. Canto do Caboclo da Pedra-Preta
7. Tristeza e solidão
8. Lamento de Exu

Discos eternos – Titanomaquia (1993)

titas-titanomaquia-frontal

RIO DE JANEIRO – Na mitologia grega, Titanomaquia foi a guerra entre os Titãs, liderados por Cronos e os Deuses Olímpicos, liderados por Zeus, que definiria o destino do Universo. Zeus derrotou Cronos depois de uma luta que durou dez anos.

Na música brasileira, mais precisamente no rock, Titanomaquia é o título do sétimo álbum de estúdio dos Titãs, que no início dos anos 90 direcionavam seu som para algo muito mais próximo do que se fazia em Seattle do que em qualquer outro lugar do mundo.

Corria o ano de 1992 e o grupo sofria sua primeira baixa. Arnaldo Antunes, cabeça pensante, compositor de vários dos clássicos titânicos desde a formação do grupo e líder natural da banda no palco, parte para carreira solo. Porém, os laços não são rompidos e ele contribui com várias músicas do novo disco.

Lançado um ano antes da debandada de Arnaldo, Tudo ao Mesmo Tempo Agora fora a primeira guinada do grupo rumo a sonoridades mais, digamos, sujas, mais pesadas. E por isso mesmo, foi massacrado pela crítica musical. Titanomaquia foi a cereja do bolo. Tanto que o disco foi produzido por Jack Endino, que trabalhara com o Nirvana em Bleach, primeiro disco do grupo de Kurt Cobain.

Essa guinada dos Titãs continuava incomodando a crítica. Nem todos foram receptivos quanto à mudança de postura do grupo no palco e à atitude sonora, com mais guitarras, mais vocais gritados e torrentes de palavrões. Nem tudo foi tão ruim, porque alguns fizeram resenhas elogiosas ao disco e, se as vendas não foram tão boas quanto nos tempos de Cabeça Dinossauro Ô Blesq Blom, as apresentações ao vivo continuavam ótimas – como sempre.

As rádios roqueiras tocaram várias das faixas, em especial “Será que é disso que eu necessito?”, de vocais urrados por Sérgio Britto e a ótima “Nem sempre se pode ser Deus” (‘Por isso que estou gritando… por isso que estou gritando… por isso que estou gritando!’), em excelente performance de Branco Mello.

O grupo mantém a velha veia irônica em músicas como “Taxidermia” (‘Se eu tivesse seus olhos eu seria famoso!’), “A verdadeira Mary Poppins” (‘Eu sou o verdadeiro Bruce Lee… eu sou o verdadeiro Bob Marley… eu sou o verdadeiro Peter Sellers… eu sou a verdadeira Mary Poppins… eu sei que estou fedendo, eu sei que estou apodrecendo’), “Felizes são os peixes” (‘Tanto faz… é igual… felizes são os peixes… felizes são os peixes’) e “Agonizando” (‘Até morrer, até morrer… até espumar, até ferver… até morrer, até morrer… até secar, até apodrecer… agonizando… agonizando… agonizando’).

Outra música que merece destaque é “Hereditário”, não pelo fato de – assim como “Será que é disso que eu necessito?”, “Nem sempre se pode ser Deus” e “Taxidermia”, ter tido clipe na MTV. Mas sim porque foi a única música com Nando Reis numa das parcerias. O baixista, que já flertava com a MPB, em momento algum estava em sintonia com o viés mais roqueiro e mais punk do grupo – e mesmo assim, apareceu nos shows de cabeça raspada, visual super agressivo.

A turnê de divulgação de Titanomaquia de fato foi um sucesso, os shows foram, em sua grande maioria, sensacionais e com o fim das apresentações, o grupo deu um tempo dos palcos. Vieram projetos paralelos – Sérgio Britto e Branco Mello formaram o grupo Kleiderman com Roberta Parisi; Paulo Miklos lançou um (ótimo) disco solo, assim como Nando Reis e Tony Bellotto estreou como romancista, lançando Bellini e a Esfinge.

Como curiosidade final: o disco veio, na sua versão em LP (que eu tive, claro, afinal estamos falando de 1993, um ano onde nem todo mundo tinha aparelho de reprodução de Compact Disc), num invólucro preto com o nome do álbum em uma tipografia de letras bem rústicas – já que na arte final concebida por Fernando Zarif não há uma única menção ao nome do grupo, quanto mais ao nome do disco.

Talvez tenha sido o último suspiro de uma grande banda que deixou sua marca no rock brasileiro porque, a aparentar pela qualidade dos discos que vieram a seguir, a energia titânica de outrora deixou de existir.

Ficha técnica de Titanomaquia
Selo: Warner Music
Gravado entre setembro de 1992 e março de 1993 no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro
Produção de Jack Endino
Duração: 35’57”

Músicas:

1. Será que é disso que eu necessito? (Sérgio Britto)
2. Nem sempre se pode ser Deus (Sérgio Britto/Branco Mello)
3. Disneylândia (Arnaldo Antunes/Paulo Miklos)
4. Hereditário (Arnaldo Antunes/Tony Bellotto/Nando Reis)
5. Estados alterados da mente (Arnaldo Antunes/Branco Mello)
6. Agonizando (Sérgio Britto)
7. De olhos fechados (Arnaldo Antunes/Paulo Miklos)
8. Fazer o quê (Sérgio Britto/Charles Gavin/Arnaldo Antunes)
9. A verdadeira Mary Poppins (Sérgio Britto/Marcelo Fromer/Paulo Miklos)
10. Felizes são os peixes (Sérgio Britto/Branco Mello)
11. Tempo pra gastar (Sérgio Britto/Marcelo Fromer/Charles Gavin)
12. Dissertação do Papa sobre o crime seguida de orgia (Arnaldo Antunes/Branco Mello)
13. Taxidermia (Paulo Miklos/Tony Bellotto/Arnaldo Antunes)

Discos eternos – Voo de coração (1983)

Ritchie - Vôo Do Coração (1983)

RIO DE JANEIRO – Um fenômeno pop como poucas vezes vimos num país que respirava os ares de uma moribunda ditadura. Um artista que não nasceu no Brasil e que conseguiu alcançar níveis estratosféricos de popularidade. Um disco que vendeu tanto ou mais – reza a lenda – que o campeão de faturamento de sua gravadora.

A personagem por trás disso tudo é Ritchie, ou melhor: Richard David Court. Inglês de Beckenham, no condado de Kent, nasceu em 1952 e foi educado em colégios internos antes de ingressar na Universidade de Oxford no curso de Literatura Inglesa. Com 20 anos apenas, abandonou os estudos: tornou-se flautista num grupo de músicas de protesto. Nessa época, ele conheceu Lúcia Turnbull, Liminha e Rita Lee. A convite desta última, Ritchie foi convidado para conhecer o Brasil. Sem saber o que lhe aconteceria dali para a frente.

Fez parte de grupos como o Scaladácida e d’A Barca do Sol, antes de trocar a flauta pelos vocais e cantar músicas em inglês no Vímana, grupo produzido por Patrick Moraz, antigo tecladista do Yes, onde o guitarrista era um certo Lulu Santos e o baterista, um tal de Lobão.

Com o fim do Vímana, graças à debandada de Lulu Santos e ao casamento de Moraz com Liane Monteiro desfeito pela paixão desta última por Lobão, Ritchie ficou uns tempos fora. Amigo de Jim Capaldi, da lendária banda de rock progressivo Traffic, participou de Let The Thunder City, álbum solo do baterista. Ritchie fez os arranjos e foi o vocalista de algumas faixas.

Em 1982, começava a revolução do rock brasileiro com o Circo Voador de Perfeito Fortuna, lançando grupos como o Barão Vermelho e a Blitz, onde Lobão, o mesmo do Vímana, era o baterista – antes de cair fora e lançar o disco Cena de Cinema – que hoje é bradado aos quatro ventos pelo próprio Lobão como um disco pioneiro na cena independente: um erro grave, pois Antônio Adolfo e Tim Maia, nos anos 70, já tinham enveredado por esse caminho.

Nessa época, descontente por não fazer parte daquilo tudo que seu amigo Lobão já fazia, Ritchie lembrou de Bernardo Vilhena, antigo letrista de músicas do Vímana e que fazia parte de um grupo de poetas chamado Nuvem Cigana, onde também se destacavam Chacal, Charles Peixoto e Ronaldo Santos. Com seus textos, eles ajudaram a renovar a poesia brasileira a partir dos anos 70. E Bernardo, na opinião de Ritchie, era o nome perfeito para ajudá-lo a compor canções para lançar o inglês como artista solo por aqui.

Com uma força de Liminha, que produziu a primeira demo num estúdio de quatro canais, Ritchie gravou “Menina Veneno” e “Baby, Meu Bem”. A fita foi levada para a CBS, que percebeu o estouro que a primeira música poderia causar. Um tiro certeiro. Um golaço de Ritchie e Bernardo Vilhena – inesquecível.

Meia noite no meu quarto
Ela vai subir
Ouço passos na escada
Vejo a porta abrir
Um abajur cor de carne
Um lençol azul
Cortinas de seda
O seu corpo nu

Menina Veneno
O mundo é pequeno
Demais pra nós dois
Em toda cama que eu durmo
Só dá você, só dá você
Só dá você!
Yeh! Yeh! Yeh! Yeh!

Seus olhos verdes
No espelho
Brilham para mim
Seu corpo inteiro
É um prazer
Do princípio ao sim

Sozinho no meu quarto
Eu acordo sem você
Fico falando pras paredes
Até anoitecer

Menina Veneno
Você tem um jeito
Sereno de ser
E toda noite
No meu quarto
Vem me entorpecer
Me entorpecer!
Me entorpecer!
Yeh! Yeh! Yeh! Yeh!

Menina Veneno
O mundo é pequeno
Demais pra nós dois
Em toda cama que eu durmo
Só dá você, só dá você
Só dá você!
Yeh! Yeh! Yeh! Yeh!

Meia noite no meu quarto
Ela vai surgir
Eu ouço passos na escada
Eu vejo a porta abrir

Você vem não sei de onde
Eu sei, vem me amar
Eu nem sei qual o seu nome
Mas nem preciso chamar

Menina veneno
Você tem um jeito
Sereno de ser
E toda noite
No meu quarto
Vem me entorpecer
Me entorpecer!
Me entorpecer!
Yeh! Yeh! Yeh! Yeh!

Menina Veneno
Menina Veneno
Yeh! Yeh!
Menina Veneno
Menina Veneno
Yeh! Yeh!

Cabe aqui um parêntese: recentemente, nas redes sociais, muita gente passou a jurar que Ritchie cantava Um abajur cor de carmim e não Um abajur cor de carne, como dito na letra aqui transcrita. Até pode fazer sentido, diante do sotaque do inglês, que transformava palavras paroxítonas em oxítonas.

A popularidade assombrosa da música levou o compacto simples a vendas incríveis. Foram meio milhão de cópias, o que levou a CBS, através do selo Epic, a gravar o primeiro disco de Ritchie, ainda naquele ano de 1983. A gravadora comemorou: afinal, tinha dois artistas com as músicas mais executadas no país – Ritchie e Michael Jackson, que explodia com “Billie Jean”, do clássico álbum Thriller.

Com o auxílio luxuoso de Lulu Santos – que fez a guitarra em “Casanova”, de Liminha no baixo, de Steve Hackett (do Genesis), que faz o belo solo de guitarra da faixa-título e de Lobão na bateria, além de Zé Luiz Segneri no sax e Chico Batera na percussão, Ritchie – pilotando teclados e tocando flauta, logicamente – fez mais estrondo com Voo de Coração.

Além do megahit “Menina Veneno”, ele fez “Casanova” ser trilha sonora de novela das oito (Champagne, em 1984) e estourou – também – com a ótima “Pelo Telefone”, com “A Vida Tem Dessas Coisas” e logicamente, a bela balada que deu título ao disco. Saldo do sucesso de Ritchie: 1,2 milhão de cópias vendidas e uma turnê de divulgação que passou por 140 cidades.

Há quem diga – mas é provável que seja mais uma lenda urbana – que, incomodado com o sucesso de Ritchie e seu 1,2 milhão de discos que aumentaram o faturamento da CBS, ninguém menos que Roberto Carlos teria pedido a cabeça do inglês. Isto cai por terra quando lembramos que o artista lançaria mais dois álbuns pela gravadora – E a Vida Continua, em 1984 e Circular, em 1985.

Um acontecimento que pode ter contribuído para a derrocada de Ritchie como artista pop foi um desentendimento com Leleco Barbosa, filho do apresentador Chacrinha, que o baniu dos shows do circuito suburbano e, por conseguinte, do Cassino do Chacrinha, o programa do popular Abelardo Barbosa nas tardes de sábado. A última música de sucesso lançada por ele, de fato, foi “Transas”, que entrou na trilha da novela Roda de Fogo e entrou no quarto álbum do cantor, em 1987.

Aos 61 anos, com nove discos gravados e mais uma participação no efêmero – e ótimo – grupo Tigres de Bengala, que formou com Cláudio Zoli, Vinícius Cantuária, Dadi, Mu Carvalho e Billy Forghieri, Ritchie ainda é cultuado pelos fãs de seus trabalhos nos anos 80 – e que vão ao delírio com eventuais aparições dele em Festas Ploc ou eventos do gênero, que cultuam fervorosamente aquela década.

Ele pode ser encontrado no twitter com a conta @ritchieguy (“O inglês mais perto de você”, de acordo com seu perfil em 140 caracteres) e, com certeza, guarda boas lembranças daqueles tempos de “Menina Veneno”.

Ficha técnica de Voo de Coração
Selo: Epic/CBS (hoje Sony Music)
Gravado e lançado em 1983
Produzido por Vinyl

Músicas:

1. No Olhar (Ritchie/Bernardo Vilhena)
2. A Vida Tem Dessas Coisas (Ritchie/Bernardo Vilhena)
3. Voo de Coração (Ritchie/Bernardo Vilhena)
4. Casanova (Ritchie/Bernardo Vilhena)
5. Menina Veneno (Ritchie/Bernardo Vilhena)
6. Preço do Prazer (Ritchie)
7. Pelo Interfone (Ritchie/Bernardo Vilhena)
8. A Carta [The Letter] (Thompson)
9. Parabéns Para Você (Ritchie/Bernardo Vilhena)
10. Tudo o Que eu Quero [Tranquilo] (Ritchie)